(Ou) O Impacto da ‘Operação Fúria Épica’ e o Risco às Mineradoras de Ouro no Brasil.

Cleiber Levy G. Brasilino.



A Tempestade Perfeita: Geopolítica, Valorização e Vulnerabilidade

Na manhã de 28 de fevereiro de 2026, o mundo acordou com a notícia de que forças militares dos Estados Unidos e de Israel haviam lançado ataques coordenados contra instalações nucleares e infraestrutura militar do Irã, a chamada Operação Fúria Épica. Nas horas seguintes, o Irã retaliou com mísseis e drones contra pelo menos catorze bases americanas em seis países do Golfo Pérsico. O ouro, termômetro implacável do medo global, saltou para US$ 5.275,82 por onça-troy. O grama de Ouro 24K no Brasil alcançou R$ 871,17, recorde absoluto. Projeções de casas como Goldman Sachs, J.P. Morgan e ANZ Banking apontam para US$ 5.400 a US$ 6.300 nos próximos meses.

Enquanto analistas financeiros calculam margens de lucro e investidores reposicionam portfólios, há uma dimensão desta crise que permanece perigosamente subestimada: a segurança física, patrimonial e operacional das mineradoras de ouro no Brasil. Um tema urgente, concreto e potencialmente fatal. É sobre ele que me proponho a escrever.

Este artigo parte de três fundamentos convergentes. Primeiro, a análise pioneira de Eduardo Gagg, publicada em janeiro de 2026 aqui no Portal Comunicação e Segurança sob o título “Valorização do Ouro e o Risco à Continuidade dos Negócios na Mineração Brasileira”, que demonstrou com rigor técnico como o ciclo de valorização do ouro amplifica exponencialmente os riscos de crimes patrimoniais complexos contra mineradoras. Segundo, o estudo que publiquei neste mesmo Portal, “A Guerra no Oriente Médio e seus Reflexos Diretos na Segurança das Mineradoras de Ouro no Brasil”, que identificou sete vetores de risco amplificados pelo conflito geopolítico. E terceiro, a notícia concreta e imediata: a mineradora peruana Hochschild Mining está prestes a iniciar a implantação de uma mina de ouro avaliada em US$ 250 milhões (aproximadamente R$ 1,4 bilhão) no município de Monte do Carmo, no Tocantins, empreendimento que nasce no epicentro exato desta tempestade de riscos.

Monte do Carmo: Uma Operação Bilionária em Território de Baixa Densidade

Monte do Carmo é um retrato fiel do Brasil Central em sua forma mais genuína. Localizada a cerca de 95 quilômetros de Palmas, a capital do Tocantins, a cidade abriga 5.694 habitantes segundo o Censo do IBGE de 2022. Possui uma área de aproximadamente 3.600 quilômetros quadrados, o que resulta em uma densidade demográfica de apenas 1,86 habitantes por quilômetro quadrado. A economia gira em torno da pecuária de corte e do cultivo de soja e milho. Apenas 893 pessoas possuem carteira assinada no município, com remuneração média formal em torno de R$ 2.400 mensais. O PIB municipal é estimado entre R$ 296 milhões e R$ 398 milhões.

É neste cenário, pacato, rural, com tradição histórica que remonta ao século XIX e forte identidade cultural, que a Hochschild Mining planeja instalar uma operação de mineração de ouro com capacidade de extração de 6 mil toneladas de minério por dia, operação estimada em 12 anos estimado em aproximadamente R$ 1,4 bilhão, com potencial de geração de 2 mil empregos diretos e indiretos. O projeto já obteve Licença de Instalação do Naturatins, além de Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos e Autorização de Exploração Florestal. Como declarou o governador Wanderlei Barbosa, a expectativa é que o processo de desenvolvimento alcance todas as localidades próximas. Milton Neres, presidente da Agência de Mineração do Estado do Tocantins (Ameto), classificou a chegada da Hochschild como “uma conquista histórica que promete mudar o cenário econômico da região”.

Não há dúvida de que o projeto representa uma oportunidade transformadora para Monte do Carmo e para o Tocantins. Porém, é preciso falar com a mesma honestidade sobre o que esta transformação implica do ponto de vista da segurança, porque a história recente do Brasil nos ensina, com sangue e destruição, o que acontece quando uma mineradora de alto valor opera sem a devida preparação para enfrentar o crime organizado.

Jacobina e Nordestina: As Lições que o Brasil Não Pode Esquecer

Na madrugada de 17 de outubro de 2016, mais de dez homens fortemente armados invadiram a Jacobina Mineração e Comércio, subsidiária da canadense Yamana Gold, na comunidade do Itapicuru, em Jacobina, na Bahia. A ação foi executada com precisão militar: os criminosos utilizaram veículos como Hilux e Corolla, empregaram explosivos para abrir o cofre da mina, e deixaram um rastro de violência que incluiu a morte do vigilante Nilson Aleixo Nascimento, de 42 anos, alvejado a tiros durante o assalto. Na fuga, incendiaram quatro veículos e espalharam grampos na BA-131, entre Jacobina e Miguel Calmon, para retardar a perseguição policial. Foram roubadas cerca de 2.000 onças de ouro, o equivalente, à época, a US$ 2,6 milhões. Um funcionário terceirizado, feito refém, conseguiu pedir socorro pelo WhatsApp por volta das 2h da madrugada. A Yamana afirmou posteriormente que o seguro cobria integralmente o roubo. Mas nenhum seguro cobre uma vida humana ceifada.

Pouco mais de dois meses depois, em 8 de janeiro de 2017, foi a vez da Mina Braúna, da Lipari Mineração, no município de Nordestina, também na Bahia. A primeira mina de diamantes da América do Sul, com capacidade de produção de 225 mil quilates por ano, empregando mais de 300 colaboradores em operação 24 horas, foi invadida por mais de 20 homens fortemente armados. Os criminosos usaram um carro para derrubar o portão da mineradora, dispararam com armas de calibre 7,62, 5,56 e 357, explodiram o cofre e levaram seu conteúdo. Moradores relataram que drones suspeitos haviam sobrevoado a área nos dias anteriores ao assalto, evidência inequívoca de planejamento prévio e inteligência tática por parte dos criminosos.

Estes dois episódios não são incidentes isolados. Representam um padrão que se consolidou e se sofisticou. Em fevereiro de 2018, bandidos fortemente armados invadiram a Mineração Fazenda Brasileiro (MFB), situada entre Teofilândia e Barrocas, também na Bahia, fechando a BR-116 Norte e fazendo funcionários reféns. A resposta policial envolveu CIPE Nordeste, CETO e Rondesp Leste, com troca de tiros entre 40 policiais e aproximadamente 50 criminosos armados com armamento pesado. E em novembro de 1999, 289 quilos de ouro da então Companhia Vale do Rio Doce foram roubados no aeroporto da Serra dos Carajás, em Parauapebas (PA), por um grupo de homens encapuzados e fortemente armados que sequestraram pilotos e os obrigaram a voar até uma pista clandestina. O último integrante do bando foi condenado apenas em janeiro de 2026, vinte e sete anos depois.

A pergunta que faço é direta: se crimes desta magnitude ocorreram quando o ouro valia entre US$ 1.200 e US$ 1.800 por onça, o que esperar agora que o metal ultrapassa US$ 5.260?

A Nova Equação do Risco: Guerra, Preço e Crime Organizado

Eduardo Gagg, em sua análise publicada neste Portal, identificou com precisão cirúrgica a relação entre a valorização do ouro e a escalada do risco criminal. Gagg demonstrou que, em um país onde a digitalização dos pagamentos via PIX reduziu drasticamente a circulação de moeda em espécie, o crime organizado necessita explorar novas atividades para sustentar seus objetivos econômicos. A mineração aurífera, por sua natureza concentrada em regiões remotas e com alta densidade de valor físico, emergiu como alvo preferencial. Gagg descreveu com exatidão o modelo do “domínio de cidades”, em que quadrilhas especializadas subjugam as forças policiais mais próximas, utilizam explosivos e executam entrada forçada nas mineradoras, exatamente o que ocorreu em Jacobina, Nordestina, Teofilândia e Parauapebas.

O que a Operação Fúria Épica acrescenta a esta análise é um catalisador de potência sem precedentes. O ouro não está apenas valorizado. Está em trajetória parabólica impulsionada por uma guerra ativa entre grandes potências no coração da maior região produtora de petróleo do mundo. Cada dólar adicional no preço do barril de petróleo alimenta a inflação global, que por sua vez impulsiona a demanda por ativos de proteção como o ouro, que por sua vez eleva o valor-alvo para criminosos, que por sua vez justifica operações criminosas cada vez mais sofisticadas e violentas. É um ciclo que se retroalimenta com velocidade alarmante.

Os dados empíricos confirmam o que a teoria antecipa. Em dezembro de 2025, a Polícia Civil de Roraima deflagrou a Operação Ouro de Tolo para desmantelar uma quadrilha interestadual que operava com armamento pesado e inteligência estratégica no roubo de ouro em múltiplos estados brasileiros. A Polícia Federal documentou organizações criminosas que criaram criptoativos próprios para lavar ouro ilegal, movimentando R$ 16 bilhões em contas bancárias. Relatório do UNODC registrou aumento de 625% nas áreas de mineração ilegal em terras indígenas na Amazônia, com facções do narcotráfico utilizando rotas do tráfico de drogas para contrabandear ouro. E em fevereiro deste ano, uma quadrilha brasileira vinculada ao PCC foi desarticulada no Uruguai após escavar um túnel de 300 metros mirando o maior banco daquele país, demonstrando que a sofisticação operacional das organizações criminosas brasileiras já opera em escala transnacional.

Quando se confrontam esses dados como o perfil de Monte do Carmo: cidade de 5.694 habitantes, 893 empregos formais, acesso por rodovia estadual, a 95 quilômetros da capital. O cenário de risco se torna inequívoco. Uma operação que pretende processar 6 mil toneladas de minério por dia, durante 12 anos, em uma região de baixa densidade demográfica e infraestrutura limitada, ao valor atual do ouro, representa um atrativo criminal de magnitude extraordinária.

Segurança Não é Custo, é Investimento Estratégico na Continuidade do Negócio

Existe um equívoco recorrente e perigoso na mentalidade corporativa de parte significativa do setor mineral brasileiro: tratar a segurança como linha de custo operacional, submetida às mesmas pressões de redução que incidem sobre insumos, logística e mão de obra geral. Este equívoco se torna potencialmente catastrófico quando aplicado a operações de alto valor agregado como a mineração de ouro e pedras preciosas.

Uma mineradora do porte da operação planejada pela Hochschild Mining em Monte do Carmo, US$ 250 milhões de investimento, 2 mil empregos, 12 anos de operação estimada, não pode se dar ao luxo de descobrir suas vulnerabilidades quando o cofre já foi arrombado, o vigilante já tombou e o metal já desapareceu na estrada vicinal. A segurança de ativos de alto valor agregado exige uma abordagem que começa muito antes do primeiro grama de ouro ser processado e que se estrutura em camadas complementares e redundantes.

Eduardo Gagg, em sua análise, enfatizou a necessidade de frameworks integrados de ERM (Enterprise Risk Management), BCP (Business Continuity Plan) e SRA (Security Risk Assessment), sustentados por dois vetores fundamentais: rotina operacional e informação. Invocando a sabedoria do físico e matemático irlandês William Thomson, Gagg lembrou que não se pode melhorar aquilo que não se pode medir. Acrescento: não se pode proteger aquilo cujos riscos não foram sequer mapeados por quem entende do assunto.

E este é o ponto nevrálgico da questão: a segurança de mineradoras de metais e pedras preciosas não pode ser delegada a profissionais generalistas. Exige especialistas com experiência comprovada no setor específico: profissionais que compreendam a tipologia operacional (céu aberto ou subterrânea), as formas de produto (doré ou concentrado), a logística predominante (rodoviária, aérea ou fluvial), os perfis de ameaça regionais e a dinâmica criminal que envolve ativos de altíssima liquidez e valor específico. A diferença entre um gestor de segurança genérico e um especialista em segurança de ativos de alto valor agregado pode ser, literalmente, a diferença entre a continuidade do negócio e a tragédia.

Da Análise de Risco ao Investimento Físico: As Camadas da Proteção Integral

O investimento em segurança para uma mineradora de ouro deve ser compreendido como um continuum que vai da inteligência à barreira física, passando por camadas tecnológicas, humanas e procedimentais. Este continuum pode ser estruturado em cinco dimensões interdependentes.

A primeira dimensão é a Análise de Risco estruturada e contextualizada. Antes de instalar uma câmera, contratar um vigilante ou erguer uma cerca, a mineradora precisa mapear com precisão seu ambiente de ameaças. Quem são os atores criminosos que operam na região? Quais são as rotas de acesso e fuga? Onde estão as zonas de sombra de telecomunicações e cobertura policial? Qual é o tempo médio de resposta das forças de segurança pública? Qual é o perfil socioeconômico do entorno e quais são as vulnerabilidades de aliciamento da força de trabalho? Estas perguntas não são retóricas. São premissas operacionais que determinam toda a arquitetura de segurança subsequente.

A segunda dimensão é a segurança cibernética. Como identifiquei em estudo anterior publicado neste Portal, o Brasil foi alvo de 314 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos em 2025, incluindo 28,1 mil incidentes de ransomware. Uma mina moderna depende de sistemas digitais para controle de processo, comunicação, logística e gestão financeira. O sequestro digital de uma operação que processa 6 mil toneladas de minério por dia pode causar prejuízos incalculáveis. Em contexto de guerra geopolítica, a superfície de ataque se amplia dramaticamente com a ativação de capacidades cibernéticas ofensivas de atores estatais e paraestatais.

A terceira dimensão é a segurança patrimonial física: perímetros, barreiras, controle de acesso, monitoramento eletrônico, vigilância armada, cofres e protocolos de custódia do metal. É a camada mais visível, mas que só funciona adequadamente quando informada pelas duas dimensões anteriores. Sem análise de risco, o perímetro pode estar no lugar errado. Sem segurança cibernética, as câmeras podem estar cegas quando mais forem necessárias.

A quarta dimensão é a segurança logística: proteção do transporte de ouro doré do site até a refinaria, incluindo escoltas armadas, rotas diversificadas, protocolos de comunicação criptografada e gestão de informação sobre horários e volumes de carga. Os ataques de Jacobina e Nordestina demonstraram que os criminosos frequentemente possuem inteligência detalhada sobre as rotinas de transporte, o que nos conduz à quinta dimensão.

A quinta dimensão é o contrainteligência e a mitigação da ameaça interna (insider threat). Gagg alertou que este é um risco crescente devido, como ele próprio descreveu, à degradação dos valores morais e sociais. Em um cenário onde o grama de ouro vale R$ 871, a tentação do aliciamento é proporcional ao valor do metal. Programas de background check contínuo, monitoramento comportamental, canais de denúncia com incentivos reais e, fundamentalmente, uma política salarial e de benefícios que valorize o trabalhador são componentes essenciais desta dimensão. As práticas de Gemba e TWI que Gagg recomendou, presença inteligente no chão de fábrica combinada com treinamento contínuo dentro da indústria, constituem a espinha dorsal humana deste sistema.

O Papel Estratégico do IBRAM na Construção de um Setor Mais Seguro

Nenhuma mineradora, por maior que seja, enfrenta sozinha os desafios de segurança descritos neste artigo. O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) assume papel absolutamente central como porta-voz e articulador do setor mineral brasileiro. Reunindo mais de 300 associados, o IBRAM tem a capacidade institucional e a legitimidade política para impulsionar transformações sistêmicas que nenhum ator isolado conseguiria promover.

As iniciativas recentes do IBRAM demonstram que a instituição compreende a dimensão do desafio. O acordo firmado em janeiro de 2024 entre o IBRAM e a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, voltado ao desenvolvimento de estudos técnicos e ao fortalecimento da segurança pública na cadeia aurífera, representa um marco de cooperação interinstitucional. O Curso de Plano de Gestão de Crises de Segurança nas Cidades, realizado em julho de 2024 em Paracatu (MG) como fruto deste acordo, demonstrou que é possível integrar segurança pública e segurança privada no enfrentamento às ameaças ao setor mineral.

A participação ativa do IBRAM no 2º Seminário Internacional sobre Atividades Ilícitas e Rastreabilidade na Cadeia de Suprimentos do Ouro, organizado pela Polícia Federal em dezembro de 2025, reforçou o compromisso do Instituto com a transparência e a rastreabilidade. O vice-presidente Fernando Azevedo destacou na ocasião a cooperação mantida desde 2021 com a Polícia Federal para a construção de um banco de dados geológicos dos jazimentos auríferos do país, permitindo identificar a procedência de amostras de ouro por meio de características geológicas, ferramenta indispensável para combater a lavagem de ouro ilegal através de licenças fraudulentas.

O Programa Ouro Alvo da Polícia Federal, apoiado ativamente pelo IBRAM e pelas empresas associadas através do Grupo de Trabalho do Ouro, constitui hoje a mais importante iniciativa de combate às ilicitudes na cadeia produtiva do ouro brasileiro. A implementação de tecnologias de rastreabilidade baseadas em blockchain, os avanços na certificação por meio de startups como a Minery e seu sistema Certimine, e a adoção de selos como o Selo Amarelo representam passos concretos na direção de uma cadeia aurífera mais segura e transparente.

Entretanto, afirmo que o IBRAM pode e deve ir além. O cenário de guerra geopolítica, hiper-valorização do ouro e sofisticação crescente do crime organizado exige que o Instituto lidere a criação de um Protocolo Nacional de Segurança para Mineradoras de Alto Valor: um conjunto de diretrizes, padrões mínimos e boas práticas que orientem todas as operações de mineração de metais e pedras preciosas no país. Este protocolo deveria estabelecer requisitos de Análise de Risco prévia à implantação, padrões de segurança física e cibernética, protocolos de resposta a incidentes, mecanismos de cooperação com forças de segurança pública e programas obrigatórios de mitigação da insider threat. A Exposibram, maior evento do setor, seria a plataforma ideal para a apresentação e discussão deste protocolo.

O Tocantins e a Janela de Oportunidade de Promover Segurança desde o Projeto

O caso de Monte do Carmo oferece uma oportunidade rara: a possibilidade de incorporar a segurança como elemento constitutivo do projeto desde sua concepção, antes que o primeiro grama de ouro seja extraído. Diferentemente de Jacobina, Nordestina ou Parauapebas, onde os ataques revelaram vulnerabilidades em operações já consolidadas, a Hochschild Mining tem a vantagem de estar ainda na fase de revisão de engenharia. A segurança pode e deve ser projetada como sistema integrado à engenharia da mina, não como remendo posterior à primeira crise.

O Tocantins, aliás, já possui experiência no setor aurífero. As mineradoras de ouro operam em Almas, Monte do Carmo, Chapada da Natividade, Pindorama e Natividade, com destaque para a expansão da Aura Minerals em Almas, que está ampliando sua capacidade de processamento de 1,3 para 3 milhões de toneladas por ano, com projeção de dobrar a produção de ouro para 1,1 tonelada até o início de 2027. Em Palmeirópolis, o complexo polimetálico produz ouro, cobre, prata e chumbo. O estado possui, portanto, uma base de conhecimento operacional que pode e deve ser compartilhada com o novo empreendimento de Monte do Carmo.

Porém, é precisamente o perfil de Monte do Carmo que exige atenção redobrada dos planejadores de segurança. Uma cidade de 5.694 habitantes, com renda média formal de R$ 2.400 e apenas 893 empregos formais, que subitamente receberá uma operação de R$ 1,4 bilhão e 2 mil trabalhadores, enfrentará transformações sociais profundas e aceleradas. O aumento da circulação de dinheiro, a pressão sobre infraestrutura urbana, a chegada de população flutuante e a percepção de riqueza concentrada em um ponto específico do território criam um ecossistema propício à ação de organizações criminosas, especialmente aquelas que já operam na mineração ilegal na região amazônica e no nordeste brasileiro.

É recomendável que a Hochschild Mining, em articulação com as Instituições envolvidas, desenvolva desde já um Plano Integrado de Segurança que contemple todas as cinco dimensões descritas neste artigo. É imprescindível que as forças de segurança sejam envolvidas desde a fase de projeto, não apenas como respondentes a incidentes, mas como parceiros na construção de um ambiente de segurança que proteja simultaneamente o empreendimento, os trabalhadores e a comunidade de Monte do Carmo.

Com o preço do Ouro, o Crime Organizado Tem nas Mineradoras Alvos Potenciais

É preciso dizer com todas as letras, sem eufemismos ou circunlóquios acadêmicos: com o ouro acima de US$ 5.260 por onça-troy, cada mineradora de ouro no Brasil é um alvo potencial do crime organizado. Não se trata de hipótese teórica. É uma realidade documentada por operações policiais, relatórios internacionais e, tragicamente, pelo sangue derramado em Jacobina.

O crime organizado brasileiro, com seus tentáculos transnacionais, já demonstrou capacidade de executar operações de complexidade paramilitar contra mineradoras. Os ataques documentados na Bahia revelaram uso de armamento militar (calibres 7,62 e 5,56), emprego de explosivos, inteligência prévia com drones, bloqueio de rodovias para retardar resposta policial, e coordenação de dezenas de homens em operações sincronizadas. Não se trata de criminalidade oportunista. Trata-se de empreendedorismo criminoso de alto nível, com planejamento, investimento e execução comparáveis a operações militares.

A convergência documentada pelo UNODC entre facções do narcotráfico e mineração ilegal de ouro na Amazônia adiciona uma camada de risco que transcende o crime patrimonial convencional. Organizações como o PCC e o Comando Vermelho, este último já flagrado fornecendo escolta armada para quadrilhas de roubo de metais, conforme operação policial de fevereiro de 2026 no Rio de Janeiro que desarticulou esquema de R$ 400 milhões em roubo de cobre, possuem capacidade logística, financeira e operacional para planejar e executar ataques de grande escala contra mineradoras. O ouro, diferentemente do cobre, oferece relação valor-volume incomparavelmente superior, o que torna a operação criminosa mais lucrativa com menor risco logístico na fase de transporte e comercialização.

A Polícia Federal, através do Programa Ouro Alvo e das operações Ganância, Golden Greed e Comando, tem demonstrado competência e determinação no enfrentamento a estas organizações. Mas a capacidade das forças de segurança pública, por mais eficiente que seja, possui limites geográficos e temporais. Gagg foi cirúrgico ao observar que as mineradoras estão normalmente estabelecidas em regiões onde a resposta de um Batalhão de Operações Militares Especiais não é imediata. Monte do Carmo, a 95 quilômetros de Palmas por rodovia estadual, se enquadra perfeitamente neste perfil. A segurança privada especializada não é um luxo. É condição sine qua non para a viabilidade do empreendimento.

Conclusão: O Preço da Negligência é Sempre Maior que o Preço da Prevenção

A história da mineração de alto valor no Brasil está pontuada por episódios que demonstram, com clareza dolorosa, o custo da negligência em segurança. Jacobina em 2016 custou uma vida humana e US$ 2,6 milhões em ouro roubado. Nordestina em 2017 expôs a primeira mina de diamantes da América do Sul à ação de bandidos armados que haviam mapeado a operação com drones. Parauapebas em 1999 produziu uma investigação que se arrastou por 27 anos até a última condenação. Cada um desses episódios gerou, além dos danos materiais e humanos imediatos, prejuízos reputacionais imensuráveis, questionamentos de investidores internacionais, revisões de seguros e, em última instância, fragilização da imagem do Brasil como destino confiável para investimentos em mineração.

Vivemos agora um momento de confluência extraordinária: a maior valorização do ouro da história moderna, alimentada por uma guerra ativa no Oriente Médio, coincide com a chegada de novos investimentos bilionários ao setor mineral brasileiro. A mina de Monte do Carmo é emblemática, mas não é a única. A Aura Minerals expande em Almas e Crixás. A CMOC assume operações da Equinox Gold em Aurizona e na Bahia. A Jaguar Mining em Pilar e Turmalina. Cada uma dessas operações é, no cenário atual, um alvo potencial para o crime organizado.

O que defendo não é alarmismo. É realismo estratégico fundamentado em dados, precedentes históricos e análise de riscos. Defendo que toda mineradora de ouro e pedras preciosas que opera no Brasil adote, com urgência proporcional à gravidade do momento, as seguintes medidas concretas: primeiro, a contratação de especialistas em segurança de ativos de alto valor agregado, com experiência comprovada no setor mineral, capazes de conduzir Análises de Risco contextualizadas e de projetar sistemas de proteção integrados; segundo, o investimento em infraestrutura física de segurança que vá muito além da cerca e da guarita, incluindo monitoramento eletrônico redundante, controle de acesso biométrico, segmentação de redes OT/IT, centros de operações de segurança 24/7 e protocolos de resposta a incidentes testados e atualizados; terceiro, a implementação de programas robustos de Continuidade de Negócios (BCP), conforme preconizado por Gagg, que garantam que um incidente de segurança, por mais grave que seja, não destrua a capacidade operacional da empresa; quarto, o engajamento ativo com o IBRAM, com a Polícia Federal e com as forças de segurança estaduais na construção de redes de cooperação e inteligência compartilhada; e quinto, a adoção de uma cultura organizacional em que a segurança seja compreendida não como custo a ser minimizado, mas como investimento estratégico na proteção de vidas, patrimônio, reputação e continuidade do negócio. O ouro brilha como nunca. Mas seu brilho atrai olhares que vão muito além dos mercados financeiros. Cabe às mineradoras, ao IBRAM, aos governos estaduais e às forças de segurança garantir que este brilho ilumine o desenvolvimento, e não a violência.


Sobre o Autor

Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor em Gestão Estratégica, Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva, Mestre em Planejamento Tático, com especializações em Inteligência e Gestão Estratégica, Gestão de Crises e Conflitos em Organizações Públicas e Privadas, com formação em Segurança Orgânica, Gestão e Análise de Riscos, e Elaboração de Procedimentos e Protocolos de Segurança. Tenente-Coronel da Polícia Militar do Tocantins, Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão da PMTO. Editor do Portal Comunicação e Segurança.

Email para contato: comunicacaoesegurancaab@gmail.com

Uma resposta para “Da Guerra no Oriente Médio ao Tocantins: A Nova Equação de Risco para o Investimento de R$ 1,4 Bilhão em Monte do Carmo.”

  1. Brilhante, cirúrgica e completamente pertinente seu artigo “Da Guerra no Oriente Médio ao Tocantins: A Nova Equação de Risco para o Investimento de R$ 1,4 Bilhão em Monte do Carmo.”
    Por mais que as mineradoras invistam em segurança patrimonial orgânica, isto se mostra um tanto inócuo frente ao atual status de organização, inteligência e atualização tecnológica/bélica das diversas facções criminosas presentes no nosso Brasil.
    A falta ou ineficácia de um combate incisivo e inteligente ao longo de anos, permitiu que o crime organizado crescesse exponencialmente no Brasil, alçando voo além de nossas fronteiras, ganhando expertise paramilitar, com uso de inteligência e contra inteligência, ensinada por membros arrebanhados/infiltrados/formados por anos em forças armadas e policiais especializadas, nos diversos estados de nossa nação. Facilitada, talvez, pela falta de investimentos sérios, materiais, financeiros e de melhoramento na qualidade do trabalho e de vida daqueles que se expõem, diuturnamente, a confrontarem o crime e promoverem a segurança da sociedade.
    O setor produtivo, e no caso específico aqui, o setor mineral brasileiro, precisa abraçar integralmente e profissionalmente o planejamento e execução de seu plano de segurança. Acredito que, inclusive, extrapolando seus muros e estabelecendo parcerias com a própria comunidade de seu entorno, que são os que podem perceber figuras estranhas presentes entre a comunidade, sendo, talvez, o primeiro sinal de alerta/algo diferente.
    Mais uma vez, parabéns ao Tenente-Coronel Cleiber Levy, da Polícia Militar do Tocantins, pelo artigo e contribuição para com a nossa segurança.

Deixe um comentário

Trending

Descubra mais sobre COMUNICAÇÃO E SEGURANÇA

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo