Por Cleiber Levy G. Brasilino  |  23 de setembro de 2026  | 

Neste artigo

  1. O que é crise da inferência?
  2. Por que checar fatos não basta contra a desinformação
  3. Por que é tão difícil mudar de opinião num país polarizado
  4. O que é a heurística da privação indutiva
  5. 5 mudanças para a comunicação pública enfrentar a desinformação
  6. A tese também precisa ser revisável

Fim de tarde, em plena temporada de queimadas, e uma coluna de fumaça sobe no horizonte da cidade. Em vinte minutos, os grupos de mensagens já têm quatro explicações completas: queimada criminosa com autoria presumida, incêndio em depósito, descuido em lote baldio e sabotagem com finalidade política. Cada uma chega com causa, culpado e moral da história. O Corpo de Bombeiros ainda está a caminho. Quando a nota oficial sair, horas depois, não encontrará um público à espera de informação. Encontrará um público que já decidiu.

A cena mostra o que o diagnóstico corrente sobre a desinformação não alcança. Há anos repetimos que vivemos uma crise da informação: excesso de conteúdo, fake news em circulação, erosão de consensos factuais. A resposta coerente com esse diagnóstico é cuidar da matéria-prima, com checagem de fatos, rótulos e educação midiática para identificar a notícia falsa. Tudo isso é necessário. O diagnóstico, porém, carrega uma suposição silenciosa: a de que o cidadão continua raciocinando como sempre raciocinou, só que agora sobre material adulterado. Bastaria limpar o material para o raciocínio voltar a funcionar.

Proponho outra leitura. Ao lado da crise da informação, que diz respeito aos conteúdos, existe uma crise da inferência, que diz respeito ao percurso. Degrada-se também a economia do próprio trabalho de interpretar.

O que é crise da inferência? Crise da inferência é a condição em que o raciocínio continua disponível, mas perde a etapa de correção: explicações prontas circulam antes dos fatos, aderir a elas custa pouco e revisá-las depois custa caro. Diferente da crise da informação, ela não se resolve só com checagem, porque depende do custo de mudar de opinião.

Por que checar fatos não basta contra a desinformação

Checar fatos não basta porque o problema está menos na falta de explicações do que no excesso delas e na etapa de correção que deixa de acontecer depois da adesão.

Charles Sanders Peirce descreveu o raciocínio como um circuito de três movimentos. A abdução propõe uma hipótese para um fato surpreendente. A dedução extrai dela consequências que poderiam ser verificadas. A indução confronta essas consequências com a experiência e devolve ao intérprete aquilo de que ele precisa para corrigir o palpite inicial. O valor do circuito mora nesse terceiro movimento, que chamo de retorno indutivo. Sem ele, uma hipótese nunca é posta à prova, apenas mantida.

O ambiente comunicacional contemporâneo não enfraqueceu nossa capacidade de formular hipóteses. Multiplicou a oferta delas. Acontecimentos de alta saliência recebem explicações causais prontas antes de terem contornos factuais estáveis. Um estudo publicado na revista Science por pesquisadores do MIT mostrou que notícias falsas alcançaram mais pessoas e se espalharam mais rápido do que as verdadeiras no Twitter (Vosoughi, Roy e Aral, 2018). Desde então, a inteligência artificial generativa reduziu a quase nada o custo de produzir texto explicativo plausível. Chamo isso de superoferta explicativa, e ela é uma propriedade do ambiente, não um mérito do sujeito.

Diante dela, a tarefa do cidadão muda de natureza. Em vez de formular e testar, ele escolhe entre explicações já formatadas. E escolhe por atalhos econômicos: familiaridade, repetição, confiança na fonte, coerência com o que já pensava, pertencimento. Escolher é diferente de investigar. Uma hipótese adotada por ser familiar não traz consigo o compromisso de ser testada.

Por que é tão difícil mudar de opinião num país polarizado

Mudar de opinião é difícil porque aderir a uma explicação custa pouco e revisá-la depois custa muito. A polarização eleva esse custo ao máximo.

Este é o núcleo da tese. Aderir a uma explicação disponível custa pouco e alivia de imediato o desconforto da dúvida, estado que o próprio Peirce descrevia como inquieto e insatisfeito. Revisá-la depois que se estabilizou custa muito mais. Chamo esse conjunto de custo da revisão, e ele se paga em três moedas diferentes:

  1. Custo cognitivo. A crença passou a organizar outras interpretações, e revisá-la obriga a refazer relações de causa, reler episódios e desfazer conexões.
  2. Custo narrativo-afetivo. Crenças integram a história que contamos sobre o mundo e sobre nós mesmos, inclusive sobre nossa competência para entender o que acontece.
  3. Custo relacional. Quando a crença funciona como marca de grupo, mudar de posição sinaliza afastamento de quem a compartilha. Em ambientes onde tudo fica registrado, a posição de ontem está arquivada e disponível para cobrança.

Num país polarizado, esse terceiro custo chega ao teto. Mudar de ideia deixa de ser correção e passa a ser deserção.

A consequência incomoda quem prefere explicações fáceis. Se aderir é barato e revisar é caro, parar de investigar antes do confronto com os fatos pode ser uma resposta coerente com a estrutura de custos que a pessoa enfrenta. Chamar isso de burrice, fanatismo ou preguiça é confortável e inútil, porque prescreve a correção do sujeito sem olhar para o ambiente em que ele decide. A mesma assimetria produz ainda o efeito oposto, igualmente corrosivo: a suspensão defensiva do juízo, o “todo mundo mente”, em que todas as versões ficam igualmente suspeitas e ninguém mais procura saber.

O que é a heurística da privação indutiva

A heurística da privação indutiva é a regra de parada pela qual a investigação se encerra antes da verificação quando conferir, e eventualmente rever, parece mais custoso do que conservar a explicação já disponível.

Ela opera dentro de um circuito de quatro operações que se alimentam umas das outras:

  1. Superoferta abdutiva. Muitas explicações, rápidas e concorrentes, disponíveis antes dos fatos.
  2. Restrição dedutiva. Cada explicação chega com um repertório estreito de consequências e sem indicar o que contaria contra ela.
  3. Enfraquecimento do retorno indutivo. Sem censura e sem falta de dados, o confronto simplesmente deixa de acontecer. A evidência contrária é julgada pela origem, nada obriga ao teste e o fluxo contínuo de atualizações nunca oferece um momento de reavaliação.
  4. Estabilização. A interpretação repetida vira hábito e passa a ser usada para interpretar os fatos seguintes.

Ilustração: circuito da crise da inferencia

Nesse ponto, o circuito se torna recursivo. A crença consolidada escolhe as próximas hipóteses, filtra as próximas evidências e encarece de novo a próxima revisão.

Privação, aqui, não significa incapacidade. A verificação continua ao alcance da pessoa, apenas deixa de ser a opção imediata. Tampouco é vivida como renúncia: a familiaridade produz sensação suficiente de compreensão para que ninguém perceba que parou. Também não se confunde com o viés de confirmação, que descreve o tratamento desigual das evidências. Na privação indutiva, a busca termina antes que as evidências cheguem a ser examinadas.

Três condições tornam essa parada mais provável:

  1. Privação biográfica. Vem de trajetórias em que perguntar, duvidar ou contestar foi punido, e deixa disposições que persistem mesmo quando o ambiente muda.
  2. Privação institucional. Vem de organizações em que rever uma posição sustentada em público custa reputação ou lugar na hierarquia.
  3. Privação de refutabilidade. Está no próprio enunciado: mensagens que oferecem causa sem tornar visível o que as desmentiria.

As duas primeiras explicam por que pessoas diferentes reagem de modo diferente à mesma mensagem. A terceira é a que mais interessa a quem comunica, porque está nas nossas mãos.

5 mudanças para a comunicação pública enfrentar a desinformação

A comunicação pública enfrenta a crise da inferência quando age sobre as condições de revisão, e não apenas sobre a qualidade do que publica.

Se a tese estiver correta, um ecossistema informacional inteiramente checado reduziria a crise da informação e deixaria a crise da inferência praticamente intacta. Melhorar a qualidade do que chega ao cidadão continua indispensável, mas rende cada vez menos depois que a crença já se formou. Isso tem consequências concretas:

  1. Comunicar cedo. A nota que chega depois das explicações encontra um espaço ocupado, que precisa desalojar. Comunicar logo o que se sabe e o que ainda não se sabe vale mais do que comunicar tarde uma versão completa.
  2. Declarar o que mudaria a avaliação. Enunciados institucionais também sofrem de privação de refutabilidade. Uma nota que declara conclusão sem dizer em que se apoia, nem em que condição seria revista, pede adesão. Separar o fato apurado da interpretação provisória devolve ao cidadão o retorno que o ambiente lhe tirou.
  3. Corrigir com a mesma visibilidade. Uma retificação com metade da saliência da informação original não existe para quem já aderiu. Correção exige destaque equivalente e versionamento visível: o que mudou, quando e por quê.
  4. Revisar em público. A instituição que trata a própria revisão como derrota ensina ao público que rever é perder. A que revisa em público, sem drama e com critério, baixa o custo relacional da revisão para todos. A privação institucional começa dentro de casa.
  5. Ensinar a rever a própria crença. A educação midiática que ensina apenas a detectar a mentira alheia forma bons acusadores. Falta ensinar a revisar a própria crença e a separar mudança de posição de perda de pertencimento.

A tese também precisa ser revisável

Uma tese sobre revisabilidade tem a obrigação de ser revisável. Se, mantida a mesma evidência, variações independentes nesses três custos não alterarem a disposição das pessoas para mudar de ideia, a assimetria que proponho perde valor explicativo e deve ser abandonada. Exigir da própria hipótese aquilo que ela cobra do debate público é condição mínima de coerência.

Voltemos à fumaça. Naquela tarde havia explicações demais. Faltou o caminho de volta: o momento em que alguém confronta o que pensou com o que aconteceu e aceita, sem prejuízo de quem é, que pensou errado. Na comunicação contemporânea, o que falta não é hipótese. É retorno.


Sobre o Autor: 

Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor e Mestre em Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva, especialista em Comunicação Semiótica, Ciências Criminais, Direito Constitucional e Gestão Estratégica em Segurança Pública. É Tenente-Coronel da Polícia Militar do Tocantins e Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão da PMTO. É autor das obras Guerra Cognitiva – Doutrina Estratégica para a Defesa da Legitimidade Policial; Guerra Informacional na Segurança PúblicaFundamentos da Comunicação Pública para Instituições de Segurança e Manual de Storytelling para o Setor Público.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/0849727250523707



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