Por Cleiber Levy G. Brasilino
Em 9 de setembro de 2026, uma força-tarefa federal reunindo a Advocacia-Geral da União, o Ministério da Saúde, a Secretaria de Comunicação Social, o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação notificou formalmente o Google por 97 perfis identificados no YouTube (veja a matéria). Segundo a comunicação oficial citada no caso, esses canais utilizavam inteligência artificial para simular profissionais de saúde e promover curas milagrosas e produtos sem comprovação científica, com forte incidência predatória sobre o público idoso. A providência exigia a remoção ou rotulagem explícita da natureza artificial dos personagens.
O episódio interessa menos pela fraude médica em si do que pelo que revela sobre o funcionamento contemporâneo da autoridade em imagem. O que esses perfis apropriam não é apenas informação médica. Apropriam-se do jaleco, do cenário de consultório, da cadência da fala, do tom de segurança e de outros elementos que, reunidos, levam o observador a produzir um reconhecimento quase instantâneo: “isto é um médico”.
Essa dinâmica expressa a produção de insígnias sintéticas. A medicina tornou o problema visível perante os órgãos de controle, mas está longe de constituir o único campo institucional vulnerável.
Insígnia Sintética
A fabricação, por meios digitais e generativos, de signos visuais, sonoros ou audiovisuais socialmente associados a uma autoridade institucional, sem que exista qualquer vínculo verificável com a instituição legalmente representada.
Na segurança pública, o alvo é evidente. Farda, viatura, brasão, distintivo, timbre de boletim de ocorrência, cenário de coletiva, linguagem operacional e enquadramento de câmera corporal formam um repertório de signos facilmente reconhecíveis e, agora, igualmente sintetizáveis. A inteligência artificial não precisa reproduzir um policial real. Precisa produzir signos suficientes para que o observador conclua que está diante da polícia.
O problema não é apenas copiar a farda: verificação versus aparência
A discussão costuma começar pela pergunta errada: como impedir que alguém copie uma farda? A resposta, no ambiente generativo, é desconfortável. Provavelmente não será possível. A imagem sintética tornou a aparência infinitamente reproduzível. O problema mais profundo, portanto, não é impedir a cópia do signo; é garantir que a sociedade consiga verificar a autoridade que esse signo pretende representar.
Um médico sintético pode ser desmentido porque a medicina brasileira possui uma arquitetura pública de verificação profissional. Todo médico real está vinculado a um registro no Conselho Regional de Medicina. A aparência pode ser copiada, mas existe, fora da imagem, um sistema capaz de responder com autoridade se aquela pessoa é ou não um profissional habilitado.
Na Polícia Militar, a situação é mais fragmentada. Não existe um índice nacional único da identidade visual das 27 corporações, tampouco um sistema público uniforme e de fácil consulta que permita a qualquer cidadão confrontar rapidamente uma imagem com a configuração oficial vigente de cada instituição. O problema começa antes da credencial individual: começa no próprio repertório visual da autoridade policial.
Em levantamento exploratório de disponibilidade documental pública realizado para este estudo, foram reunidos atos normativos de fardamento estaduais na medida em que estavam acessíveis em portais oficiais. A ausência de localização de um documento não significa sua inexistência; revela uma dificuldade prática de verificação pública. A diversidade cromática e normativa das corporações amplia a ambiguidade visual: azul, cinza, cáqui, verde, preto tático e padrões especializados coexistem em arranjos diferentes entre estados e unidades.
É essa fragmentação que interessa cognitivamente. Um vídeo de um suposto policial circula nacionalmente em segundos, mas a norma que poderia autenticá-lo permanece local, dispersa ou pouco acessível. A circulação do signo é nacional; a arquitetura de verificação continua fragmentada.
O paradoxo dos signos locais em um ambiente nacional
A vulnerabilidade das Polícias Militares possui uma característica que antecede a inteligência artificial: seus signos institucionais são definidos predominantemente em escala estadual e, dentro das próprias corporações, podem adquirir variações entre comandos, unidades especializadas, fardamentos operacionais e padrões de viaturas. No entanto, a circulação desses mesmos signos ocorre hoje em escala nacional e digital.
Assimetria semiótica: norma local, interpretante nacional
A consequência é uma assimetria semiótica: a norma é local; o interpretante é nacional. Uma farda concebida para ser reconhecida no interior de determinado estado aparece, em segundos, diante de milhões de pessoas que desconhecem seus códigos de autenticidade. O cidadão médio não sabe distinguir com segurança quais cores, brasões, insígnias, grafismos de viatura ou configurações de uniforme pertencem à Polícia Militar do Tocantins, de Goiás, do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado. Ele reconhece uma categoria mais ampla: “polícia”.
É precisamente essa generalização perceptiva que a inteligência artificial explora. O modelo generativo não precisa reproduzir com fidelidade a farda de uma corporação específica. Precisa apenas combinar elementos visuais suficientes para ativar no observador o interpretante “isto é um policial militar”. Quanto maior o número de configurações legítimas e pouco conhecidas fora de seus territórios de origem, maior também o espaço de plausibilidade para configurações sintéticas.
Maturidade de identidade visual nas forças de segurança brasileiras
Outras forças de segurança apresentam respostas distintas a essa vulnerabilidade visual, conforme sintetizado a seguir:
| Instituição | Abrangência da Norma | Nível de Padronização Visual | Superfície de Ataque Semiótico |
|---|---|---|---|
| Polícia Federal e PRF | Federal / Nacional | Unificada e centralizada | Baixa: desvios visuais são rapidamente identificáveis em âmbito nacional. |
| Polícias Civis | Estadual articulada | Em processo avançado de padronização nacional | Média: identidade visual comum reduz espaço para montagens híbridas. |
| Polícias Militares (27 forças) | Estadual fragmentada | Alta dispersão de cores, fardas e viaturas | Crítica: grande diversidade legítima confunde a autenticação pelo público geral. |
O problema, portanto, não reside somente na existência de 27 identidades estaduais, pois elas possuem valor histórico, cultural e institucional legítimo. A principal vulnerabilidade surge quando a identidade permanece fragmentada, enquanto a circulação dos signos se torna nacional. As corporações possuem signos de autoridade territorialmente normatizados, mas cognitivamente consumidos por uma audiência nacional sem filtros regionais.
Essa fragmentação amplia a superfície cognitiva de ataque. Um conteúdo sintético não precisa acertar perfeitamente a farda de uma PM específica. Pode utilizar uma configuração híbrida tonalidade plausível (colete tático, brasão indistinto, viatura parcialmente visível e a palavra “POLÍCIA MILITAR”) e produzir, nos primeiros segundos, o reconhecimento categorial desejado. Se uma corporação desmente o vídeo afirmando que aquela farda não lhe pertence, o público pode simplesmente realocá-la mentalmente para algum dos outros estados.
Forma-se uma ambiguidade institucional distribuída: a falsificação sobrevive porque não precisa provar a qual corporação pertence. Vinte e sete negações parciais não equivalem a uma autenticação nacional negativa. No ambiente da guerra cognitiva, isso é relevante porque o objetivo de uma operação hostil pode não ser convencer o público de uma versão específica dos fatos, mas degradar sua capacidade coletiva de distinguir o verdadeiro do falso.
A crise de indexicalidade da autoridade sob a semiótica de Peirce
A semiótica de Charles Sanders Peirce ajuda a compreender por que a falsificação funciona. Um signo pode operar por semelhança, por conexão existencial e por convenção:
- Ícone: representa porque se parece com o objeto (aparência visual imediata).
- Índice: aponta para o objeto mantendo com ele uma relação física, causal ou de contiguidade real no tempo e no espaço.
- Símbolo: opera porque uma convenção social ou regra institucional consolidou seu significado.
A farda policial participa desses três registros. É icônica porque sua aparência remete imediatamente a uma organização policial; é simbólica porque a sociedade aprendeu que aquela configuração representa autoridade, dever funcional e pertencimento institucional; e deveria ser também indexical, isto é, manter uma ligação verificável com uma corporação, um agente, um local e uma ocorrência reais.
A inteligência artificial generativa consegue reproduzir com enorme facilidade as duas primeiras camadas. Ela fabrica a aparência icônica e sequestra a convenção simbólica. O ponto frágil reside no terceiro vértice: a imagem sintética não possui relação existencial com a instituição que aparenta representar.
A tecnologia não precisa fabricar a polícia; precisa fabricar signos suficientes para que o observador produza o interpretante: “isto é polícia”. Instala-se a crise de indexicalidade da autoridade. O público continua recebendo sinais convincentes de autoridade, mas perde instrumentos simples para confirmar se esses sinais apontam para uma autoridade real. A aparência deixa de ser prova de origem.
Um problema que já existia antes da inteligência artificial
A tecnologia não criou essa vulnerabilidade, apenas reduziu drasticamente o seu custo. Em maio de 2025, a Polícia Militar de Goiás prendeu, em Goiânia, um homem de 27 anos que mantinha fardas de unidades especializadas e as utilizava para obter vantagens, abordar pessoas e construir uma identidade policial falsa em redes sociais (veja aqui). Não havia síntese generativa; havia apenas acesso físico ao signo e a confiança de que a aparência seria suficiente para a maioria das pessoas.
A inteligência artificial remove esse último obstáculo material. Não é mais necessário possuir o uniforme, encontrar uma viatura, montar fisicamente um cenário ou existir presencialmente. Um modelo generativo aprende os traços recorrentes da estética policial e produz uma combinação plausível. O resultado pode não corresponder a nenhuma farda real e permanecer cognitivamente eficaz.
Isso altera a economia da fraude. O custo marginal da falsificação visual aproxima-se de zero, enquanto o custo institucional da verificação continua alto: localizar a origem, identificar a corporação, analisar o conteúdo, preservar evidências, produzir resposta oficial e recuperar a confiança abalada. O emissor hostil pode gerar dezenas de falsificações no tempo em que a instituição ainda verifica a primeira.
Da fraude à guerra cognitiva: critérios de distinção necessários
É fundamental não transformar toda falsificação em guerra cognitiva. Uma insígnia sintética pode ser empregada em fraude comercial, estelionato, sátira, entretenimento, desinformação episódica ou operação hostil. O artefato técnico isolado não define a natureza da ação.
No campo da guerra cognitiva, a classificação exige atribuição e critérios rigorosos. A falsificação passa a integrar uma operação cognitiva quando está inserida em uma ação deliberada de influência, em contexto de competição hostil, com amplificação tecnológica ou coordenação capaz de ampliar o alcance, somada à fabricação ou descontextualização demonstrável. Sem esses elementos, há fraude ou desordem informacional, mas não necessariamente guerra cognitiva.
Essa distinção protege o rigor analítico e preserva a própria instituição. A segurança pública em um Estado Democrático de Direito não pode classificar crítica legítima, jornalismo ou erro factual como ameaça hostil apenas porque geram desconforto. A defesa cognitiva não existe para blindar a instituição contra a verdade factual; existe para defender a verdade contra a manipulação e a distorção deliberadas.
O dividendo do mentiroso e a corrosão da prova real
A vulnerabilidade das insígnias sintéticas produz dois efeitos cognitivos simétricos e igualmente danosos:
- O falso positivo: o público reconhece como policial uma autoridade, viatura ou ocorrência que nunca existiram, herdando autoridade sem responsabilidade.
- O dividendo do mentiroso: quando a sociedade assimila que qualquer imagem pode ser sintetizada, registros verdadeiros passam a ser descartados sob a alegação retórica de manipulação digital.
Na segurança pública, essa assimetria atua nos dois sentidos. Uma corporação pode perder a capacidade de ser acreditada ao desmentir uma simulação e, simultaneamente, perder a capacidade de responsabilização interna quando uma evidência real de conduta indevida é rejeitada sob a escusa de deepfake. A fragilidade de autenticação que viabiliza a mentira facilita também a negação da realidade.
A fragmentação visual como vulnerabilidade institucional
A defesa de uma arquitetura nacional de autenticação não implica considerar irrelevante a ausência de padronização de fardas e viaturas. A fragmentação visual das Polícias Militares constitui uma fragilidade concreta do sistema. Ela dilata a incerteza sobre quais configurações são autênticas e alarga o espaço de plausibilidade explorado por representações sintéticas.
As 27 corporações possuem legitimidade para preservar suas tradições e identidades históricas. A fragilidade surge quando a autonomia gera um universo disperso de cores, grafismos, brasões e padrões operacionais. No meio físico, essa fragmentação era atenuada pela convivência territorial. No ecossistema digital, as imagens circulam em tempo real para audiências sem repertório local.
A ausência de convergência semiótica mínima amplia a superfície de ataque informacional. Quanto mais imprevisível for o inventário visual legítimo, maior a facilidade para que signos sintéticos sejam acolhidos como verossímeis antes que qualquer resposta de checagem seja estruturada.
Arquitetura semiótica de autenticação: três medidas institucionais
Entre a uniformização impositiva e a dispersão absoluta existe um caminho viável baseado em parâmetros visuais mínimos e tecnologia de verificação. Esse modelo opera em duas frentes complementares: convergência gráfica onde for viável e governança digital da prova de autoridade.
1. Repositório nacional de identidade visual
Criação de um repositório público digital, padronizado e legível por máquina, contendo o inventário oficial e vigente das 27 corporações e de suas forças especializadas. Esse instrumento não impõe farda única: estabelece uma referência documental pública contra a qual imagens suspeitas possam ser confrontadas formalmente pela sociedade e pela imprensa.
2. Protocolo integrado de atribuição e resposta rápida
Estruturação de um fluxo nacional articulado de confirmação e checagem entre as corporações estaduais. Uma simulação com circulação em âmbito nacional não pode ser respondida por iniciativas isoladas e tardias. O protocolo estabelece competência comunicacional rápida para orientar o interpretante público antes da consolidação de memórias falsas.
Considerações finais: a reconstrução da confiança na era generativa
A inteligência artificial generativa não criou a falsificação de autoridade; industrializou a sua escala e reduziu a quase zero o custo de produção de aparências. Proteger os símbolos institucionais da segurança pública não se resume à preservação de tecidos, cores ou brasões. O verdadeiro ativo em disputa é a legitimidade das instituições democráticas perante a sociedade.
A medicina consegue contrapor jalecos sintéticos porque possui, por trás da vestimenta, a base estruturada do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Medicina. A segurança pública precisa dotar seus signos da mesma capacidade de verificação sistemática, associando parâmetros visuais compartilhados a uma infraestrutura nacional de autenticação digital.
Na economia das insígnias sintéticas, a confiança institucional não poderá mais repousar exclusivamente naquilo que parece verdadeiro. Terá de se apoiar naquilo que pode ser demonstrado e verificado.
Sobre o Autor:
Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor e Mestre em Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva, especialista em Comunicação Semiótica, Ciências Criminais, Direito Constitucional e Gestão Estratégica em Segurança Pública. É Tenente-Coronel da Polícia Militar do Tocantins e Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão da PMTO. É autor das obras Guerra Cognitiva – Doutrina Estratégica para a Defesa da Legitimidade Policial; Guerra Informacional na Segurança Pública, Fundamentos da Comunicação Pública para Instituições de Segurança e Manual de Storytelling para o Setor Público.





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