Por Cleiber Levy G. Brasilino

Em 7 de setembro, enquanto o país discutia o tamanho dos atos na Avenida Paulista, circulou o resultado final do Fuerzas Comando 2026, competição de forças de operações especiais das Américas realizada em Assunção, entre 24 e 28 de agosto, sob organização do Comando Sul dos Estados Unidos. O Brasil terminou em décimo sétimo lugar, entre dezessete nações, com 340,01 pontos. À frente estão Costa Rica, com 383,82, Jamaica, com 495,20, e Belize, com 505,69. No topo do quadro, República Dominicana, com 753,77, Colômbia, com 748,89, e Estados Unidos, com 720,35. O país havia sido quinto colocado em 2024, venceu a competição em 2009 e não participou da edição de 2025, ainda que convidado.

No dia seguinte, 8 de setembro, veio a segunda informação. O Southern Vanguard 2026, exercício de guerra na selva patrocinado pelo comando do Exército norte-americano para o Hemisfério Ocidental, começou em Tarapoto, no Peru, reunindo peruanos, norte-americanos, chilenos e argentinos. O Brasil, que sediou as duas últimas edições, em Lorena, São Paulo, em 2022, e no Pará e no Amapá, em 2023, com mil e duzentos militares brasileiros empregados, está ausente. Não há registro público de convite recusado nem de convite feito. Também não há sinal de atrito diplomático que explique a ausência, uma vez que o Comandante do Exército esteve em Washington em agosto e os canais bilaterais seguem ativos.

As duas informações chegam na mesma semana em que se tornou público o levantamento dos planos de governo das doze candidaturas à Presidência da República. Com exceção das candidaturas de esquerda radical, que propõem desmilitarização das polícias, há convergência do Partido dos Trabalhadores ao Partido Liberal quanto ao emprego das Forças Armadas contra facções criminosas e quanto à presença militar permanente na faixa de fronteira. Sobre segurança pública, o país diverge em quase tudo, exceto no essencial: a resposta ao crime organizado será militar.

É a coincidência dessas três informações, e não cada uma isoladamente, que merece análise.

O que um ranking mede e o que ele não mede

Convém começar pelo que o dado não autoriza afirmar. Uma competição não mede a capacidade operacional de uma força armada. Mede o desempenho de uma equipe específica, num conjunto específico de provas, sob um sistema de pontuação que penaliza com severidade erros de execução. A distância entre 340,01 e 753,77 pontos é grande demais para ser lida como declínio da tropa brasileira. Distâncias dessa ordem costumam decorrer de composição de equipe, de tempo de preparação dedicado à competição, de penalidades acumuladas em provas específicas ou de fatores circunstanciais. Até o fechamento deste texto, não foi localizada explicação oficial brasileira para a pontuação, nem informação atribuindo a colocação a penalidades, lesões ou incidentes durante o certame.

A ressalva é necessária, e não desarma o problema. Ela o desloca. Se o resultado não mede capacidade operacional, então mede outra coisa. E é exatamente essa outra coisa que interessa a quem estuda legitimidade institucional.

Legitimidade performática

Competições internacionais e exercícios combinados não são torneios. São rituais de aferição pública de competência. Constituem o espaço em que uma instituição demonstra, diante do público doméstico e dos pares regionais, que sabe fazer aquilo que afirma saber fazer. O valor desses eventos não está no troféu, está na demonstração. Uma força armada que compete e vence não fica mais capaz por causa da vitória; ela se torna publicamente reconhecível como capaz, o que é coisa distinta e, para efeitos de legitimidade, decisiva.

Ficar em último lugar num ritual dessa natureza e estar ausente do exercício de selva do continente, justamente no domínio em que o Brasil foi durante décadas a referência formadora da região, não degrada capacidade. Degrada aquilo que se pode chamar de legitimidade performática: a capacidade de ser vista como capaz. E legitimidade performática não é ornamento. É precondição de mandato. Uma instituição só recebe missão nova quando parcelas relevantes da sociedade e do sistema político acreditam que ela dará conta.

Aqui está o desencontro que a semana produziu. O sistema político brasileiro, em convergência rara e transpartidária, prepara-se para atribuir às Forças Armadas o enfrentamento das facções criminosas. Faz isso apostando num capital simbólico cuja demonstração pública mais recente foi um décimo sétimo lugar em Assunção e uma cadeira vazia em Tarapoto. A aposta pode estar correta no mérito, e a competição pode ser um retrato injusto. O ponto é que a decisão política não está sendo tomada com base em demonstração; está sendo tomada apesar dela, e sem que a contradição tenha sido sequer enunciada no debate eleitoral.

Duas trajetórias formativas

Há uma leitura mais produtiva do que a do declínio, e ela se apoia na observação de quem ocupou o pódio. República Dominicana, Colômbia e Estados Unidos encabeçam um quadro em que figuram, nas primeiras posições, países que operam há mais de uma década sob doutrina de interoperabilidade com o Comando Sul, com ciclos de treinamento, padrões de avaliação e vocabulário tático compartilhados. O Brasil recusou a edição de 2025, competiu em 2026 e ficou em último, e agora está fora do exercício de selva.

O que esse conjunto sugere não é decadência, é divergência de trajetória formativa. Dois sistemas formando para guerras diferentes, com métricas diferentes, e um deles avaliado com a régua do outro. A questão deixa de ser quem é melhor e passa a ser qual sistema de formação a política pública está escolhendo quando decide que a resposta ao crime organizado é militar. Porque essa decisão é, antes de tudo, uma decisão sobre quem forma para o quê. Se o enfrentamento às facções migra para o campo militar, a formação relevante deixa de ser a policial, e o investimento doutrinário das academias de polícia perde centralidade sem que ninguém tenha decidido explicitamente retirá-la.

O vazio não permanece vazio

Falta o último elemento, e é o mais desconfortável. Desde o início do ano, o Comando Sul vem afundando embarcações no Caribe sob a justificativa do combate ao narcotráfico, o mais recente episódio envolvendo uma embarcação equatoriana ligada a organização criminosa. Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital foram designados organizações terroristas por Washington, e a hipótese de operações terrestres contra facções na América Latina passou do rumor ao anúncio, com formação de coalizão regional à qual o Brasil não aderiu.

A capacidade que o Brasil não demonstrou nas últimas semanas é precisamente aquela que outro ator se oferece para exercer em seu lugar. Vazios de legitimidade performática não permanecem vazios. São ocupados, e quem os ocupa passa a definir os termos do problema, o vocabulário da solução e, no limite, a jurisdição simbólica sobre a segurança do território.

Nada disso está decidido. Um resultado ruim numa competição não determina o futuro de uma instituição centenária, e uma ausência num exercício pode ter explicação administrativa banal. O que está decidido, e passou sem debate, é a delegação. Doze planos de governo convergem para entregar às Forças Armadas uma missão que elas não foram chamadas a demonstrar que sabem cumprir, na semana em que as duas ocasiões públicas de demonstração terminaram, uma em último lugar, outra em ausência.

Debater segurança pública em ano eleitoral exige menos consenso e mais pergunta. Esta é uma delas.


Sobre o Autor: 

Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor e Mestre em Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva, especialista em Ciências Criminais, Direito Constitucional e Gestão Estratégica em Segurança Pública. É Tenente-Coronel da Polícia Militar do Tocantins e Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão da PMTO. É autor das obras Guerra Cognitiva – Doutrina Estratégica para a Defesa da Legitimidade Policial; Guerra Informacional na Segurança PúblicaFundamentos da Comunicação Pública para Instituições de Segurança e Manual de Storytelling para o Setor Público.



Referências

REVISTA SOCIEDADE MILITAR. Lanterna das Américas: Brasil termina em último no Fuerzas Comando 2026 e fica atrás de Jamaica, Belize e Costa Rica. [S. l.], 7 set. 2026. Disponível em: https://www.sociedademilitar.com.br/2026/09/fuerzas-comando-2026-brasil-mgs.html. Acesso em: 8 set. 2026.

REVISTA SOCIEDADE MILITAR. O exercício de guerra na selva das Américas começou no Peru sem o Brasil, que sediou as duas últimas edições do Southern Vanguard. [S. l.], 8 set. 2026. Disponível em: https://www.sociedademilitar.com.br/2026/09/southern-vanguard-2026-peru-brasil-fora-exercicio-selva-2022j.html. Acesso em: 8 set. 2026.

REVISTA SOCIEDADE MILITAR. Segurança pública, Forças Armadas e Soberania Nacional: a visão dos candidatos à Presidência em 2026 vai da desmilitarização das polícias ao anti-imperialismo. [S. l.], 8 set. 2026. Disponível em: https://www.sociedademilitar.com.br/2026/09/seguranca-publica-forcas-armadas-e-soberania-nacional-a-visao-dos-candidatos-a-presidencia-em-2026-vai-da-desmilitarizacao-das-policias-ao-anti-imperialismo.html. Acesso em: 8 set. 2026.

NP EXPRESSO. Brasil termina em último em competição de forças especiais. [S. l.], set. 2026. Disponível em: https://npexpresso.com.br/pelo-mundo/brasil-termina-em-ultimo-em-competicao-de-forcas-especiais. Acesso em: 8 set. 2026.

JUST SECURITY. Early Edition: September 8, 2026. New York, 8 set. 2026. Disponível em: https://www.justsecurity.org/156556/early-edition-september-8-2026/. Acesso em: 8 set. 2026.

EMBAIXADA DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL. Terrorist Designation of Comando Vermelho and Primeiro Comando da Capital. Brasília, 2026. Disponível em: https://br.usembassy.gov/terrorist-designation-of-comando-vermelho-and-primeiro-comando-da-capital/. Acesso em: 8 set. 2026.

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