Cleiber Levy G. Brasilino.


E se grandes lições doutrinárias do país viessem do coração geográfico da nação? De um território que o crime organizado tentou converter em corredor irrestrito e que, em resposta, produziu três das maiores operações policiais integradas do país nas últimas duas décadas?

A Geopolítica que o Crime Enxergou

O Tocantins não foi escolhido ao acaso pelas maiores facções criminosas do continente. Sua posição geográfica configura o que as ciências militares denominam “nexo arterial”: o estado que une Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com infraestrutura rodoviária, hidrográfica e aérea capaz de fazer fluir qualquer coisa que precise circular de um extremo ao outro do país. A topografia de transição entre Cerrado e Amazônia acrescenta o que nenhuma cidade oferece: ocultamento em escala industrial, com mata densa suficiente para esconder grupos armados por semanas em um território que abrange 280.000 km2 com uma densidade geográfica menor de 6 habitantes por km2.

O crime organizado contemporâneo, em sua lógica empresarial, calculou esse valor. O ‘Novo Cangaço’e o ‘Domínio de Cidades’, modalidades de assalto a cidades com características paramilitares, encontraram no Tocantins a rota perfeita: matas imensas, rodovias que convergem para múltiplos estados, fronteiras interestaduais vulneráveis. O narcotráfico aéreo encontrou aqui algo ainda mais valioso: um espaço de silêncio estratégico, pistas clandestinas cercadas de floresta, e distância suficiente dos grandes centros para operar com conforto. Quando o Estado tocantinense percebeu que o território havia se tornado cobiçado, a resposta não foi o lamento institucional sobre insuficiência de recursos. Foi a construção, operação por operação, de uma doutrina de integração que hoje o Brasil inteiro deveria estudar.

O Percurso Operacional

Quem analisa as Operações Pequizeiro, Canguçu e Entre Rios como eventos isolados pode cometer o mesmo erro analítico de quem avalia batalhas sem compreender a campanha. As três operações formam uma progressão doutrinária coerente, cada uma respondendo a desafios distintos e elevando o patamar da seguinte.

Operação Pequizeiro

A Operação Pequizeiro, deflagrada em novembro de 2019 na região de mesmo nome, foi o primeiro teste de estresse máximo do modelo integrado que então se consolidava. Conduzida e executada pela Polícia Militar do Tocantins, a operação reuniu duzentos policiais de cinco forças distintas: PMTO, Polícia Militar de Goiás, Polícia Militar do Pará, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, com apoio da Polícia Civil do Tocantins. Sessenta viaturas, três helicópteros e quinze dias ininterruptos de incursão em mata fechada foram empenhados para neutralizar a chamada ‘Quadrilha dos Pipocas’, grupo familiar profissionalizado, armado com fuzis 5.56, AK-47 e equipamentos de comunicação táticos. O que a Pequizeiro demonstrou foi simples: o Tocantins havia deixado de ser zona de conforto para o crime. O ‘Novo Cangaço’ encontrou um Estado capaz de ir aonde ele fosse, por quanto tempo fosse necessário.

Operação Canguçú

A Operação Canguçu submeteu os limites logísticos, a resistência física das tropas e as capacidades de inteligência da segurança pública nacional ao um teste mais severo.

Deflagrada em 2023 após o ataque frustrado a Confresa (MT), foi a mais longa e extenuante operação policial em ambiente rural já ocorrida no Brasil. Trinta e oito dias ininterruptos, mais de trezentos policiais de cinco unidades federativas em operação coordenada pela Polícia Militar do Tocantins com a participação das Polícias Militares de Mato Grosso, Goiás, Pará e Minas Gerais, além da Polícia Civil do Tocantins, da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, em 4.600 km² de área de operações.

Os criminosos ostentavam treinamento paramilitar: amarravam sacos nos pés para não deixar rastros, permaneciam durante dias nas copas das árvores, subsistiam com milho cru. O que os neutralizou não foi apenas a superioridade numérica. Foi a supremacia tecnológica deliberada com uso de drones com câmeras de imagem termal FLIR, que transformavam a escuridão em desvantagem para o adversário, aeronaves, visão noturna. Ao final, dezoito criminosos morreram nos confrontos, cinco presos, onze fuzis AK-47 e dois fuzis antimaterial calibre .50, e vários outros armamentos confiscados.

Operação Entre Rios

A Entre Rios, deflagrada esta semana (fevereiro de 2026), representa a maturidade doutrinária que as duas anteriores tornaram possível. Enquanto Pequizeiro e Canguçu foram essencialmente respostas reativas de altíssima competência, a Entre Rios foi ação baseada em inteligência pré-operacional de dez dias de infiltração silenciosa em ambiente florestal. Equipes do Comando de Policiamento Especializado de Goiás dormindo em redes, operando sob total silêncio tático, mapeando uma infraestrutura de narcotráfico aéreo sofisticada que utiliza pistas clandestinas, galpões de combustível de aviação, bunkers subterrâneos para armazenamento de toneladas de entorpecentes. A operação foi conduzida de forma integrada entre a Polícia Militar do Tocantins e policiais Militares e Penais de Goiás. O resultado foram quinhentos quilos de cocaína interceptados, vários armamentos, uma aeronave bimotora Baron confiscada, sete traficantes neutralizados.

A Dimensão Cognitiva: O Que os Números Comunicam

Toda operação policial produz dois tipos de resultado. O primeiro é físico e quantificável: criminosos neutralizados, armamento apreendido, drogas interceptadas. O segundo é cognitivo e estratégico: o que a operação comunica, que percepção ela gera nas organizações criminosas, nas comunidades e no sistema institucional mais amplo.

A dimensão cognitiva das três operações tocantinenses possui um indicador irrefutável. O Tocantins registrava 34 ocorrências de roubo a instituições financeiras em 2014, uma taxa de 5,4 por 100 instituições. Em 2024, esse número havia recuado para apenas 2 registros, com taxa de 0,4 por 100 instituições, uma redução superior a 92% conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A queda seguiu tendência nacional registrada na maioria dos estados que informaram seus dados ao Anuário, e revela ainda uma migração das facções do crime patrimonial físico para a cibercriminalidade, fenômeno que não invalida o modelo tocantinense, mas o confirma. A queda no Tocantins não é estatística favorável: é a prova da eficácia comunicativa do modelo.

As facções não abandonaram o ‘Domínio de Cidades’ no Tocantins por falta de ambição. Abandonaram porque o cálculo racional de custo-benefício tornou a modalidade inviável. Cada operação bem-sucedida do Estado reescreve a percepção de risco que as organizações criminosas constroem sobre o território. Quando uma quadrilha calcula onde atacar, o histórico de resposta estatal pesa tanto quanto a resistência física do alvo. O Tocantins construiu, através de duas operações singulares em escalas de sofisticação, a reputação de território de altíssimo custo operacional para o Novo Cangaço e agora mostra que o custo é idêntico para o tráfico internacional de drogas.

O Sexto Domínio na Segurança Pública

Em 2020, o OTAN publicou o documento que formalizaria uma reconfiguração doutrinária na história dos conflitos modernos estabelecendo que o cérebro humano é o campo de batalha do século XXI e que o domínio cognitivo constitui o sexto domínio operacional da guerra transcendendo os cinco domínios tradicionais: terrestre, marítimo, aéreo, espacial e cibernético.

Esse é o núcleo da dimensão informacional que a segurança pública nacional precisa compreender. Não se trata de comunicação institucional no sentido convencional de assessoria de imprensa e notas oficiais. Trata-se de uma semiótica operacional onde os resultados concretos, amplamente documentados e difundidos, constroem signos de dissuasão que alteram o comportamento dos atores criminosos antes mesmo do confronto.

O resultado da operação Canguçu comunicou algo que nenhuma campanha de marketing institucional poderia: o Estado, quando integrado, não recua.

A inteligência que precedeu a Entre Rios acrescenta outra camada cognitiva ao modelo. Dez dias de infiltração silenciosa, com compartilhamento de informações interagências produzem um sinal inequívoco para as redes criminosas: o Estado vê sem ser visto, sabe sem revelar que sabe, age no momento de sua escolha. Para organizações que dependem da imprevisibilidade do adversário estatal, esse tipo de capacidade é mais perturbador do que a superioridade de fogo.

A FICCO/TO e a Nova Frente do Combate ao Narcotráfico

A FICCO/TO é composta pelas Polícias Federal, Civil, Militar e Penal do Tocantins, atuando sob coordenação da Polícia Federal no enfrentamento estruturado às organizações criminosas transnacionais. Não se trata de uma força-tarefa conjuntural, ativada diante do crime e dissolvida após o confronto. Trata-se de uma arquitetura de inteligência permanente, capaz de monitorar rotas, identificar infraestruturas clandestinas e coordenar ações antes que o crime se instale. É exatamente o que a Entre Rios demonstrou na prática: foram as informações da FICCO/TO que possibilitaram a interceptação da aeronave em Dueré e desencadearam toda a cadeia operacional subsequente.

Os resultados das últimas duas semanas de fevereiro de 2026 ilustram com precisão essa capacidade. Em operações coordenadas pela FICCO/TO e executadas com apoio da Polícia Militar do Tocantins, foram apreendidas mais de duas toneladas de entorpecentes no estado, incluindo a interceptação de duas aeronaves com a prisão em flagrante de um piloto. O volume apreendido num intervalo tão curto não é coincidência operacional: é o produto de inteligência acumulada, de integração funcional entre esferas estadual e federal, e de uma presença estratégica consolidada no corredor central do país. O narcotráfico transnacional que transita pelo Tocantins, com aeronaves provenientes da Bolívia e Colômbia, pilotos com rotas internacionais e infraestrutura de armazenamento subterrânea, encontrou em fevereiro de 2026 um Estado que não apenas reage, mas antecipa. Essa capacidade antecipatória, construída sobre a cooperação entre FICCO/TO e PMTO, é o mais recente capítulo de uma doutrina que o Brasil inteiro deveria incorporar.

O Que a Segurança Nacional Pode Aprender

A primeira lição é sobre integração como doutrina permanente, não como arranjo de emergência. As três operações foram possíveis porque os protocolos de cooperação, os canais de comunicação e a confiança mútua entre as corporações preexistiam ao momento crítico. O fato de a Polícia Militar de Minas Gerais ter deslocado operadores do BOPE em aeronave horas após a solicitação da PMTO durante a Canguçu não foi improviso: foi a consequência de vínculos institucionais construídos antes da crise.

A segunda lição é sobre sustentação logística autônoma. Operações de 38 dias em área de mata exigem infraestrutura logística que a maioria dos estados brasileiros simplesmente não possui: bases avançadas de reabastecimento, rodízio planejado de efetivo, suporte médico em campo, cadeia de suprimento de munição e alimentação. A segurança nacional precisa de centros logísticos regionais capazes de sustentar operações prolongadas em ambientes remotos, antecipando o próximo desafio, não reagindo ao anterior.

A terceira lição, e talvez a mais urgente, é sobre supremacia tecnológica como fator decisivo em ambientes assimétricos. A Canguçu foi vencida fundamentalmente porque os drones FLIR eliminaram a vantagem que o adversário havia construído no domínio noturno da floresta. A inteligência que precedeu a Entre Rios foi construída a partir de capacidades de sensoriamento que permitiram mapear uma infraestrutura complexa sem revelar presença. A atualização contínua de frotas de VANTs, sistemas de visão termal e monitoramento geoespacial por satélite deixou de ser opção e tornou-se pré-requisito operacional.

A quarta lição é a transição doutrinária mais silenciosa e mais importante das três: a passagem da resposta reativa para a ação baseada em inteligência prévia. A Pequizeiro respondeu a um ataque. A Entre Rios antecipou um ciclo inteiro de operações criminosas antes que ele se completasse. Esse salto não é automático: exige a fusão sistemática de inteligência humana e técnica entre esferas estaduais e federais, a formação de analistas capazes de transformar dados dispersos em cenários de ação e a cultura institucional que valoriza a paciência estratégica tanto quanto o confronto direto.

O Corredor Central do Brasil e o Que Está em Jogo

Existe uma assimetria grave no modo como o Brasil pensa sua segurança nacional. A atenção se concentra nas fronteiras geopolíticas convencionais, nos grandes centros urbanos, nas rotas marítimas. O corredor central do país, que liga tudo a tudo e por onde flui a maior parte do que circula no território nacional, permanece subrepresentado na doutrina federal.

O Tocantins é esse corredor. Quando bem guarnecido, estrangula simultaneamente as rotas de narcotráfico aéreo e terrestre, os corredores de fuga do crime patrimonial e os fluxos de contrabando interestaduais. Inversamente, qualquer fragilização da segurança no Tocantins ressoa em todas as direções, porque o fluxo criminal, como todo fluxo, encontra o caminho de menor resistência.

As três operações analisadas não são apenas casos de sucesso estadual. São a demonstração empírica de que o corredor central pode ser defendido, que a integração interagências funciona em condições extremas, que a progressão da resposta reativa para a ação baseada em inteligência é possível e replicável. O saldo combinado das três operações, 31 criminosos de alta periculosidade neutralizados, dezenas de fuzis de guerra confiscados, toneladas de entorpecentes interceptados e uma infraestrutura aérea clandestina desmantelada, não é vitória local. É um modelo.

O Brasil tem o hábito de esperar que a tragédia preceda o reconhecimento. No campo da segurança pública, esse hábito custa vidas, território e décadas de vantagem cedidas ao crime. O Tocantins não esperou. A Polícia Militar do Tocantins construiu, operação por operação, uma doutrina de liderança e integração que o país agora tem a oportunidade de estudar, replicar e expandir, antes que a próxima crise exija, mais uma vez, que o Estado aprenda sob pressão o que poderia ter aprendido com antecedência.


Sobre o Autor:

Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor em Gestão Estratégica, Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva, especialista em Comunicação, Semiótica, Neurolinguística e Análise do Discurso. Tenente-Coronel da Polícia Militar do Tocantins. Subdiretor de Ensino e Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão da PMTO. Autor das obras “Guerra Informacional na Segurança Pública”, “Fundamentos da Comunicação Pública para Instituições de Segurança” e “Manual de Storytelling para o Setor Público”.

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