Por Cleiber Levy G. Brasilino
A eleição de 2026 no Tocantins não será vencida apenas por quem tem mais cabos eleitorais físicos nas ruas, mas por quem entende o que o eleitor faz no celular o dia todo. Os dados do Estado mostram um cenário muito claro. Segundo a PNAD Contínua TIC do IBGE[i], o acesso à internet no Brasil supera 90% entre maiores de 10 anos, tendência que se acelera no Tocantins com a expansão do 5G em zonas rurais. O salto é gigantesco em comparação a 2016, quando esse índice era de apenas 65%. O acesso na zona rural cresceu 142,2% nos últimos anos e o 5G impulsionou a conexão nos assentamentos e nas pequenas propriedades agrícolas mais afastadas. Essa digitalização do interior profundo acabou com o monopólio da informação. Aquele eleitor do campo que antes dependia exclusivamente do rádio ou da conversa na praça para saber da política agora consome e compartilha vídeos o tempo todo.
Mas existe um erro grave de análise ao olhar para esses números. Não basta saber que a população está conectada. É preciso entender como ela acessa a internet. Apenas 17,9% das casas no Tocantins têm banda larga rápida e sem limite de dados. A grande massa de eleitores e cidadãos usa a internet pelo celular com planos pré-pagos. Nesses pacotes, apenas o WhatsApp, o Instagram e o Facebook funcionam sem descontar dos créditos. Para a maioria da população, a internet é apenas a rede social e nada mais. Por isso, não adianta que candidatos, campanhas ou até mesmo instituições públicas gastem fortunas montando portais pesados e cheios de PDFs com planos de governo ou cartilhas. O cidadão de baixa renda simplesmente não vai clicar no link, pois sabe que isso vai acabar com a franquia de dados dele.
O que Mudou de Fato de 2022 para 2026
Projetos que replicam a arquitetura de alcance de 2022 ignoram a mudança estrutural no critério de distribuição algorítmica, que prioriza retenção por segundo sobre base de seguidores. Em 2022, o alcance das publicações dependia muito de quantos seguidores a figura pública tinha. A regra era ter um perfil bonito no Instagram e tentar agir como um influenciador digital.
O jogo agora mudou para a lógica dos vídeos curtos. O algoritmo das redes sociais passou a entregar o conteúdo com base naquilo que prende a atenção da pessoa, mesmo que ela nunca tenha ouvido falar daquele nome. É exatamente por isso que figuras novatas estão conseguindo atropelar políticos tradicionais cheios de recursos. Eles aprenderam a gravar vídeos rápidos, diretos e na vertical, falando a língua do povo.
Outro ponto de alerta máximo para a sociedade e para a Justiça Eleitoral é o uso da Inteligência Artificial. Criar áudios e vídeos falsos ficou muito barato e rápido. O TSE consolidou o marco regulatório por meio da Resolução 23.755/2024, que exige identificação de conteúdo gerados por IA, veda montagens ofensivas e estabelece janelas de restrição pré-eleitoral. Se uma campanha ou instituição não tiver uma equipe preparada para desmentir um áudio falso no WhatsApp em questão de minutos, todo um trabalho pode desmoronar na véspera da votação.
O Peso das Lideranças e o Voto no Celular
Existe um debate constante nas reuniões de coordenação política. Uma parte acredita que o apoio de prefeitos e vereadores resolve tudo sozinho. A outra parte acha que a internet substituiu completamente o trabalho de rua. O projeto vencedor será aquele que souber unir as duas coisas.
O apoio político regional continua sendo fundamental para dar estrutura e garantir aquele piso mínimo de votos. Mas a conquista do eleitor indeciso vai acontecer na tela do celular. A liderança aliada apresenta o nome do candidato na cidade, mas é o conteúdo na internet que convence o eleitor quando ele está no sofá de casa à noite. Abandonar as ruas é um erro fatal. Porém, depender apenas do cabo eleitoral e ignorar os anúncios patrocinados na internet para bairros específicos é assinar a derrota antes da hora.
Como Fazer o Dinheiro da Campanha Render Mais
Com os limites de gastos da Justiça Eleitoral e as regras do fundo público, cada centavo do contribuinte precisa ser muito bem planejado. Aquela velha mania de espalhar dinheiro em todos os canais possíveis ou lotar a capital com outdoors que pouca gente presta atenção não traz voto real.
O ciclo de 2024 demonstrou um fenômeno de subversão orçamentária: campanhas de alta velocidade e produção descentralizada conseguiram capturar atenção orgânica em escala, contornando a lógica de compra de mídia tradicional. Campanhas tradicionais gastam fortunas e demoram 24 a 48 horas para aprovar uma publicidade altamente polida. O modelo disruptivo visto recentemente operou em ciclos de edição e publicação de 15 a 30 minutos. Essa agilidade dita quem controla a narrativa central sem a necessidade de comprar espaço institucional.
Esse efeito também muda a alocação do dinheiro ao trocar a compra de audiência centralizada por um mix de canais descentralizado. A tática de fornecer a matéria-prima (o vídeo original) para que uma rede de micro distribuidores espalhe “cortes” curtos de forma orgânica triturou orçamentos adversários. Tentar combater uma engrenagem de guerrilha digital descentralizada com inserções televisivas de trinta segundos possui um custo altíssimo e um impacto nulo no eleitor conectado de hoje.
Uma campanha profissional para 2026 coloca a maior parte do orçamento na inteligência digital e na velocidade de reação. Usar a tecnologia para cruzar dados e entender o que cada região precisa permite enviar a mensagem certa para a pessoa certa. É muito mais barato e eficiente pagar para um vídeo aparecer no celular de quem mora em um bairro com problemas de segurança do que gastar fortunas com programas de TV genéricos. A economia real acontece quando a comunicação deixa de ser feita para todo mundo ao mesmo tempo, abandona a lentidão burocrática, e passa a focar apenas na agilidade e em quem realmente decide a eleição.
A Defesa Rápida contra-ataques
A grande dor de cabeça das próximas eleições será a defesa contra mentiras e montagens. Aqui voltamos para a questão do plano de celular pré-pago. A regra básica para se defender é responder no mesmo local e no mesmo formato do ataque. Como muita gente não verifica se a notícia é verdadeira e tem internet limitada, o eleitor não vai abrir o navegador para ler uma nota oficial de um departamento jurídico. Se o ataque foi um áudio falso disparado no WhatsApp, a defesa tem que ser um áudio ou vídeo curto, verdadeiro e direto, mandado de volta pelo próprio WhatsApp. Dessa forma, a população consegue ouvir a verdade sem gastar a sua internet. Pensar comunicação pública ou estratégia eleitoral ignorando a realidade financeira do eleitor é perda de tempo e de recursos.
O Veredito para 2026
A eleição de 2026 no Tocantins será um divisor de águas definitivo. O velho modelo eleitoral, baseado apenas na força das estruturas físicas e na lentidão das propagandas institucionais, perdeu a capacidade de vencer sozinho. O eleitor mudou por completo, o acesso à informação chegou aos cantos mais isolados do estado através das telas do celular e as regras do jogo foram reescritas pela inteligência artificial e pelo consumo voraz de vídeos curtos.
Projetos políticos, lideranças e instituições que insistirem em ignorar essa nova realidade vão ficar pelo caminho. Gastar fortunas para falar sozinho em formatos que o povo não consegue acessar é o atalho mais rápido para a derrota. A evidência dos últimos ciclos sugere que a vantagem financeira deixa de ser condição suficiente quando a campanha adversária domina a velocidade de produção e a distribuição descentralizada. A eleição será vencida por quem tiver a humildade de entender a rotina real do cidadão comum e a velocidade necessária para conversar de forma clara, rápida e autêntica na tela do celular.
Sobre o autor:
Cleiber Levy G. Brasilino é especialista em Comunicação eleitoral e marketing político; Neurolinguística; Comunicação pública; Comunicação semiótica e análise do discurso.
Contato: comunicacaoesegurancaab@gmail.com
[i] INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua 2016-2025. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.





