Como narcobloqueios retaliadores neutralizaram a narrativa oficial de segurança em setenta e duas horas.

Por Cleiber Levy G. Brasilino e Raphael van der Broocke Mello Pompeu.


O Triunfo Tático e o Colapso Cognitivo

No domingo, 22 de fevereiro de 2026, enquanto o exército mexicano anunciava a eliminação de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, as primeiras ondas de violência retaliatória já tomavam as estradas de Jalisco. Nas horas que se seguiram, enquanto a presidência do México declarava aos microfones que o país vivia sob plena normalidade, imagens de veículos incendiados e o registro de centenas de bloqueios rodoviários promovidos pelo Cartel Jalisco Nueva Generación circulavam incontrolavelmente nas redes globais.

Métricas do Caos: O Índice de Sentimento Ponderado (ISP)

O Índice de Sentimento Ponderado (ISP) é uma métrica de análise de sentimento que mensura a valência emocional predominante em um corpus digital, atribuindo pesos proporcionais ao volume de publicações, ao alcance de cada conteúdo e à intensidade dos termos empregados. A escala varia de -10 a +10: valores próximos de zero indicam neutralidade emocional, valores positivos sinalizam aprovação e confiança crescentes no objeto analisado, e valores negativos expressam rejeição, medo e pânico em graus progressivos. Segundo estudos de análise de conteúdo e de análise de sentimento realizados pelos autores sobre o corpus digital do período, o ISP sobre os ataques retaliadores atingiu a marca extrema de -10, configurando o nível mais severo de pânico capturado nas setenta e duas horas posteriores à operação. A morte de El Mencho expôs uma fratura gravíssima na doutrina governamental. A eliminação do líder máximo do narcotráfico no domínio físico gerou uma derrota esmagadora do Estado no domínio cognitivo.

Uma operação de influência de alta intensidade se desdobrou simultaneamente nos estados de Jalisco, Michoacán, Tamaulipas, Guanajuato e em mais meia dúzia de territórios. O cartel empregou os padrões de fragmentação e de indução mapeados na teoria da comunicação para moldar diretamente o ambiente informacional. Ao paralisar vias públicas e exibir força bélica minutos após a queda de sua liderança, a organização criminosa fragmentou o impacto do sucesso militar e induziu a percepção imediata de que o governo não detém o monopólio da violência. O grupo criminoso transferiu o campo de batalha do plano físico para a mente do cidadão comum, provando de forma cabal que o poder coercitivo do narcotráfico contemporâneo reside na distribuição capilar do terror visual.

fonte: http://cnnespanol.cnn.com/mexico

Os estudos de análise de conteúdo e de análise de sentimento realizados pelos autores evidenciam o contraste profundo entre a narrativa governamental e a realidade material vivenciada pela sociedade civil. A comunicação oficial buscou ancorar a percepção pública no orgulho das Forças Armadas, gerando um ISP positivo (+8) restrito aos canais institucionais de difusão. Essa tentativa de contenção de danos operou sob a lógica da ocultação. O foco no sucesso tático e nas garantias de paz para o megaevento esportivo da Copa do Mundo chocou-se frontalmente com a experiência relatada por entidades locais. A imprensa e mídias sociais retrataram ruas vazias, escolas fechadas e cidadãos sitiados pelo medo, uma realidade totalmente incompatível com a estabilidade asseverada pelo Executivo.

fonte: https://heraldodemexico.com

A Heurística da Disponibilidade e o Terror Visual

Na era digital, marcada pela circulação instantânea de informações, as notícias são divulgadas quase em tempo real por múltiplas fontes simultâneas. Esse fluxo contínuo de conteúdos expôs a população, de maneira recorrente e intensa, a registros de crimes, imagens de violência e narrativas alarmantes, impactando diretamente a percepção subjetiva de segurança. A repetição incessante, potencializada por algoritmos que priorizam conteúdos de forte apelo emocional, ampliou uma percepção de risco que a comunicação governamental não conseguiu neutralizar. A experiência informacional criou a impressão generalizada de descontrole e consolidou uma sensação de medo caracterizada pelo sentimento constante de vulnerabilidade e pela crença de que inexistem mecanismos eficazes de proteção, fragilizando a confiança nas instituições e na capacidade do Estado de garantir ordem e segurança.

Essa dissonância pragmática ativou de modo instantâneo a heurística de disponibilidade na população mexicana. O cérebro humano, operando sob intenso estresse de sobrevivência, julga a realidade pelos eventos mais dramáticos, emocionalmente carregados e recentes que lhe vêm à memória. Os vídeos amadores de narcobloqueios e a constatação macabra da baixa de vinte e cinco soldados da Guarda Nacional, confirmada pelas autoridades mexicanas, desmentiram qualquer retórica apaziguadora. O Estado exigia uma adesão racional e analítica ao seu triunfo investigativo, acessando o processamento deliberativo da cognição. As facções, em contrapartida, injetaram combustível direto no sistema de processamento emocional da população pelo estímulo visual do fogo e da paralisação.

O Ambiente Operacional Híbrido

No teatro digital, o terror percebido sempre vence a estatística governamental fria. Em uma era de hiperconectividade, na qual qualquer cidadão possui meios para produzir e disseminar conteúdos audiovisuais em tempo real, o Estado não pode ignorar que o ambiente operacional se tornou difuso e híbrido. Ações policiais não podem restringir-se à dimensão tática; precisam ser acompanhadas, de forma coordenada e simultânea, por uma estratégia consistente de comunicação no campo informacional. A disputa já não se encerra no espaço físico. Conquistar a percepção pública e preservar a legitimidade institucional tornaram-se exigências operacionais incontornáveis. Toda intervenção em segurança pública produz impactos imediatos na mente coletiva, e o êxito de uma operação passou a depender, em larga medida, de como os fatos são apresentados, compreendidos e interpretados pela sociedade.

O custo operacional de ignorar a dinâmica deste novo domínio de conflito é a perda acelerada da licença social para operar. Quando as instituições de segurança atrasam o reconhecimento de que a narrativa do adversário já estabeleceu raízes, a janela de oportunidade para influenciar a percepção pública evapora. A inércia governamental nas horas cruciais da crise criou um vácuo de orientação que o crime organizado assumiu sem dificuldade. Sem uma comunicação proativa que valide a gravidade da crise tempestivamente, a população perde a confiança na capacidade do Estado de protegê-la. Uma sociedade aterrorizada e desprovida de referências factuais oficiais sólidas aceita a governança armada paralela como mecanismo de sobrevivência diária.

Reflexos no Brasil: O Cenário das Facções Nacionais

A realidade brasileira não oferece distância confortável diante desse cenário. Organizações como o PCC e o Comando Vermelho já demonstraram, em episódios de represália a operações policiais em São Paulo, Fortaleza e Manaus, a mesma lógica de transferência do campo de batalha para o ambiente informacional. Bloqueios de vias, ataques a estruturas públicas e a difusão viral de imagens de terror integram o repertório retaliatório das facções nacionais com a mesma eficiência registrada no caso mexicano. O gestor de segurança pública brasileiro que lê o episódio de El Mencho como história alheia comete o mesmo erro de percepção que o México cometeu antes de as chamas acenderem.

Diretrizes para a Sobrevivência Institucional

Gestores de segurança pública precisam internalizar a hora de ouro da comunicação de crise como um imperativo de sobrevivência democrática. A resposta a incidentes de altíssimo impacto exige transparência ativa e o estabelecimento de centros de operações cognitivas capazes de mapear o avanço do terror digital com agilidade. Isso implica protocolos que determinem a emissão de comunicados preliminares nos primeiros trinta minutos após o início do evento crítico, preenchendo o vazio informacional com fatos verificados antes que a força adversa monopolize o enquadramento. A corporação estatal deve reconhecer o problema publicamente antes que a narrativa adversária ganhe corpo. A comunicação deve ser tratada com a mesma seriedade e celeridade do despacho de viaturas táticas.

A comunicação deixa de ser um acessório que apenas transmite informações para se tornar uma ferramenta estratégica indissociável das ações policiais na dimensão física. O campo de conflito ultrapassa o espaço material e incorpora a dimensão informacional, e é nesse plano que se trava a disputa mais sensível. O embate cognitivo assume, muitas vezes, relevância superior ao confronto concreto, pois é ele que molda a interpretação dos fatos, consolida narrativas e define a legitimidade das instituições perante a sociedade.

A defesa da legitimidade institucional demanda a exposição cirúrgica e prévia das táticas de manipulação do adversário por meio de inoculação psicológica. As polícias devem educar o público sobre como as facções utilizam queimas de veículos espetaculares para disfarçar o pânico interno decorrente da perda de suas lideranças. Desconstruir o truque antes que o espetáculo aconteça imuniza a sociedade contra o impacto das chamas. A captura de um alvo de alto valor destrói a logística estrutural de uma organização criminosa, mas é a capacidade institucional de extinguir o incêndio cognitivo subsequente na mente do cidadão que determina se o Estado sobrevive ao próprio sucesso.


Sobre os Autores:

Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor em Gestão Estratégica, Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva, especialista em Comunicação, Semiótica e Análise do Discurso, Inteligência Estratégica, Psicologia Fenomenológica Existencial, Neurolinguística, e Direito. Tenente-Coronel da Polícia Militar do Tocantins. Subdiretor de Ensino e Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão da PMTO. Autor das obras “Guerra Informacional na Segurança Pública”, “Fundamentos da Comunicação Pública para Instituições de Segurança” e “Manual de Storytelling para o Setor Público”.

Raphael van der Broocke Mello Pompeu é  Major da Polícia Militar do Distrito Federal, graduado em Ciências Policiais, com pós-graduações em Ciências Jurídicas, Ciências Policiais e Gestão Estratégica em Segurança Pública. Chefe da Seção de Assessoria de Imprensa e Porta-Voz da PMDF, Especialista em Comunicação Estratégica e Operativa e Pós-graduando em Comunicação Estratégica para gestão de marca e reputação.

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