Por Eduardo Gagg
O ciclo recente de valorização do ouro ampliou significativamente os riscos associados à segurança patrimonial e à integridade física de colaboradores do setor de Mineração. Com a redução significativa da circulação da moeda em espécie devido à frequente e já cultural utilização do sistema de pagamento “PIX”, criminosos necessitam explorar outras atividades para compensar seus objetivos. Em um país marcado por grandes distâncias, operações remotas, zonas de sombra na infraestrutura de telecomunicações brasileira, diversidade logística e assimetrias de presença estatal, a mineração aurífera passou a figurar entre os setores industriais mais expostos a crimes patrimoniais complexos, extorsões, sabotagens e interrupções sistêmicas.
Este white paper apresenta uma análise nacional estruturada, considerando:
- Tipologia operacional (céu aberto e subterrânea);
- Forma de produto (doré no site ou concentrado);
- Logística predominante (rodoviária, aérea e fluvial);
- Impactos diretos sobre a continuidade do negócio.
O estudo culmina em uma matriz de risco com explanação da criticidade, seus impactos e sugestões de gestão voltados a gestores de segurança privada, continuidade de negócios e risco corporativo.
Introdução: Ouro, Valor e Criminalidade Econômica
O ouro sempre ocupou posição singular na economia global: ativo de reserva, instrumento de hedge e meio de troca universal. Em períodos de instabilidade macroeconômica, tensões geopolíticas e volatilidade cambial, sua valorização tende a acelerar. No entanto, esse mesmo movimento gera externalidades negativas para países produtores, especialmente aqueles com grandes áreas remotas.
No Brasil, a mineração de ouro se distribui por diferentes biomas e contextos sociais, variando desde operações altamente industrializadas até regiões historicamente pressionadas por economias ilícitas. A elevação do preço do ouro provoca:
- Aumento da atratividade criminal ao produto;
- Eleva o risco de planejamento criminoso sofisticado;
- Intensifica a atuação de atores internos (insider threat);
Diferentemente de crimes oportunistas, os eventos que afetam minas de ouro tendem a possuir planejamento especializado e alto impacto, com potencial de paralisar operações por semanas ou meses. Tal crime não afeta tão somente a empresa detentora da mina, como também afeta economia, política e segurança pública. Ou seja, seus efeitos colaterais afetam, certamente, o cidadão comum. Enfim, crimes de alto impacto afetam notoriamente a Sociedade.
Uma empresa é feita para dar lucro e existe para atender necessidades da Sociedade, desde o cidadão comum as mais diversas instituições nela inseridas. E, por falar em Sociedade e os impactos de crime de tal natureza, as empresas de Mineração devem possuir um robusto BCP (Business Continuity Plan), que é o Plano de Continuidade de Negócios para continuar atendendo aos interesses relacionados ao negócio. Vamos falar mais sobre isso.
Avaliação de Risco
Existem dois vetores que devem ser constantemente analisados para sustentar ganhos e evitar perdas:
- Rotina Operacional
- Informação
Não se consegue melhorar aquilo que não se pode medir, como diria físico e matemático irlandês William Thomson. Eu diria até mais: não se pode proteger ou administrar aquilo sem índices confiáveis e estruturalmente relacionados à natureza do negócio. Por isso, se faz necessário suporte contextualizado em ERM (Enterprise Risk Management), BCP (Business Continuity Plan) e SRA (Security Risk Assessment) para ter o melhor aproveitamento de recursos valendo-se da probabilidade de ocorrência e impacto no negócio.
Aliás, ERM, BCP e SRA são suportados por rotinas operacionais e informação, basicamente. Ambos os vetores devem ser trabalhados sob uma ótica equilibrada de Operação e Segurança adequadamente alinhados com os objetivos do negócio.
Tipologia Operacional e Exposição ao Risco
A operação de mineração possui condições inerentes que devem ser analisadas sob vários aspectos e ponto de vista para uma adequada proteção ao negócio. Normalmente as mineradoras estão estabelecidas em regiões isoladas e distantes de proteção policial de grande porte. Por exemplo, a resposta de um Batalhão de Operações Militares Especiais alcançar tais regiões não é imediata. Obviamente criminosos se valem de tal condição. Pode-se também chegar à mineração por diversos acessos, tanto por terra como por via aérea, ocasionando forte exposição visual e territorial.
A valorização do metal aumenta também o risco de sabotagem e fraudes, tanto internas quanto externas. Para se conhecer as ameaças e poder tratá-las corretamente, se faz necessário olhar a situação através de outros ângulos. Uma análise dos riscos internos e externos, por mais subjetiva que seja, dificilmente se distanciaria de:

Modalidades de cada risco:
- Roubo de metal doré:
Quadrilhas especializadas em “domínio de cidades”, valendo-se do conhecimento e experiência em ataques aos grandes centros de guarda e/ou custódia de valores (transportadoras de valores, centros bancários, casas de penhor, por exemplo) subjugam as forças policias mais próximas e provocam entrada forçada à mineradora, normalmente utilizando explosivos.
- Ataque Cibernético:
O mais comum e provavelmente mais comum seria o Sequestro de sistemas críticos, que é um ataque de ransomware direcionado, no qual o agente malicioso obtém acesso à rede corporativa e executa a criptografia simultânea de sistemas essenciais ao funcionamento da mina, tornando-os indisponíveis até o pagamento de resgate em criptomoeda. O resultado seria a paralisação total da mina, causando impactos de grande monta.
- Extorsão mediante sequestro:
Trata-se de um crime onde o funcionário da mina, geralmente com acesso à informação ou poder de decisão, é privado de sua liberdade e mantido em cativeiro. Mediante ameaça de seus familiares é obrigado a colaborar com os planos criminosos para obtenção dos valores.
- Insider threat (infidelidade)
Trata-se de um risco que vem aumentando devido à deagradação dos valores morais e sociais. Nesse caso, funcionários são aliciados pelos criminosos para colaborar com planos de invasão diretamente ou indiretamente através do vazamento de informações.
- Sabotagem logística:
O objetivo é gerar parada operacional, perdas financeiras ou descumprimento contratual, explorando gargalos logísticos. É um tipo de risco associado à infidelidade, porem com foco em prejudicar a empresa sem necessariamente obtenção de ganhos financeiros para o sabotador.
Tratamento dos riscos
Um erro comum e facilmente cometido por gestores de segurança é olhar um risco apenas do seu ponto de vista. Várias práticas podem ajudar a obter visões diferentes dos riscos:
- Ter equipe multidisciplinar, com conhecimentos e habilidades individuais e que se complementam em equipe;
- Praticar o “Gemba”, que é ir ao chão de fábrica, ou seja, pela definição do conceito japonês, ir ao local real, falar com as pessoas, estar próximo da operação;
- Pode ser contraditório, mas não é: não exagerar no Gemba! Quando se está tempo demais dentro de um local, passa-se a fazer parte da “paisagem”. Daí os elefantes brancos passam na sua frente desapercebidos.
- Ter instrução e orientação consultiva: um consultor pode assessorar na implantação das melhores práticas e sistemas com o melhor aproveitamento dos investimentos.
Investir em treinamento e orientação. Existem boas práticas de TWI (Training Within Industry, em Português “Treinamento Dentro da Indústria”) que visam manter o funcionário ciente de procedimentos operacionais bem como de medidas de gestão de risco. Esta prática, associada ao Gemba, é, por experiência, uma das melhores práticas pois envolve líderes e liderados na aplicação de políticas, procedimentos e gestão do negócio de forma objetiva.
Diante do cenário complexo delineado, onde a valorização do ouro amplifica a sofisticação das ameaças, conclui-se que a proteção efetiva dos ativos e das vidas envolvidas transcende medidas convencionais, tornando-se imprescindível contar com a atuação de profissionais com experiência comprovada no Setor de Mineração de Metais e Pedras Preciosas, tanto no contexto brasileiro quanto global. Somente a expertise consolidada em Crimes Violentos contra o Patrimônio, aliada a uma robusta Análise de Riscos Corporativos, é capaz de antecipar vulnerabilidades e estruturar respostas resilientes que garantam, em última instância, a segurança integral e a continuidade aos negócios.
Sobre o Autor: Eduardo Gagg é graduado em Engenharia Mecânica, com MBA em Gestão de Negócios e Tecnologia, Pós-Graduação em Investigação Criminal e Psicologia Forense. Atua como Consultor de Segurança Multidimensional. Possui mais de 28 anos em gestão de empresa de segurança privada.
Portal Comunicação e Segurança
Edição:
Cleiber Levy G. Brasilino – Doutor em Gestão Estratégica, Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva






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