A Comunicação como A Última Linha de Defesa da Legitimidade Policial
Por Cleiber Levy G. Brasilino
Vivemos um momento de inflexão na Segurança Pública brasileira. Durante décadas, concentramos nossa formação e doutrina na “guerra cinética”, o domínio do terreno, o uso progressivo da força, a tática de confronto. No entanto, o século XXI nos impôs uma nova frente de batalha para a qual poucas academias nos prepararam: a guerra informacional.
Neste cenário, onde a “realidade artificial” construída por cortes de vídeo e narrativas descontextualizadas pode destruir a reputação de uma instituição centenária em minutos, a comunicação deixou de ser uma função de “apoio” ou “assessoria”. Ela ascendeu à categoria de Função de Comando.
Este editorial marca o posicionamento do site COMUNICAÇÃO E SEGURANÇA sobre o papel inegociável da comunicação estratégica. Não estamos falando de marketing, nem de “enfeitar” a realidade. Estamos falando de sobrevivência institucional e, acima de tudo, de legitimidade.
1. Da Técnica à Ciência: O Fim do Amadorismo
As Ciências Policiais já nos ensinaram que a atividade de segurança não pode mais ser baseada no empirismo ou no “achismo”. Assim como a investigação criminal exige método científico, a comunicação policial exige epistemologia própria e estratégia.
Não basta “soltar uma nota”. É preciso compreender os fenômenos sociais, a semiótica dos nossos símbolos e a análise do discurso que permeia a sociedade. Se queremos ser reconhecidos como produtores de ciência e não apenas como “objeto de estudo” de terceiros, precisamos profissionalizar nossa fala com o mesmo rigor com que profissionalizamos nossa ação operacional.
2. O Dever Constitucional: Educar, Informar e Orientar
A comunicação pública nas instituições de segurança não é uma opção; é um dever constitucional alicerçado no Artigo 37 da Constituição Federal. Mas devemos ir além da publicidade legal. Nossa missão é Educar, Informar e Orientar.
- Educar o cidadão sobre o seu papel na prevenção;
- Informar com transparência ativa, preenchendo o vácuo de informação antes que a desinformação o faça;
- Orientar a sociedade em momentos de crise, garantindo a ordem não apenas nas ruas, mas nas mentes.
É imperativo lembrar: a comunicação pública é impessoal. Ela não serve para a promoção de autoridades (o “storyselling”), mas para a construção de valor público e fortalecimento da marca institucional.
3. A Batalha das Narrativas e o Poder do Storytelling
Na era da pós-verdade, dados frios não convencem; histórias conectam. A estatística de redução de homicídios é vital para a gestão, mas é a história do policial que salvou uma vida, ou da comunidade que foi transformada pela pacificação, que gera pertencimento.
Precisamos dominar a arte do Storytelling Público. Não para inventar ficção — pois a verdade é nosso maior ativo — mas para estruturar os fatos de forma que o cidadão se veja como protagonista da segurança, e a polícia como sua guardiã legítima. Se não contarmos a nossa história, com nossos valores e nossa humanidade, o crime organizado e os detratores institucionais contarão uma versão onde somos os vilões.
4. A Comunicação como Escudo e Lança
Em meu livro Guerra Informacional, defendo que a narrativa atua como Escudo, protegendo a moral da tropa e a imagem da corporação, e como Lança, perfurando as bolhas de desinformação e cinismo.
O silêncio burocrático é uma sentença de derrota. A sociedade espera uma instituição de portas abertas, que dialoga, que presta contas (accountability) e que não teme a transparência.
O site COMUNICAÇÃO E SEGURANÇA nasce para ser o farol desse novo pensamento. A segurança pública do futuro não será feita apenas com viaturas blindadas e armamento de ponta, mas com palavras precisas, narrativas autênticas e uma conexão humana inquebrável com a sociedade.
Lembrem-se sempre: A última linha de defesa da instituição não é o colete balístico. A última linha de defesa é a verdade bem contada.
Sejam bem-vindos ao campo de batalha cognitivo.
Sobre o Autor: Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor em Gestão Estratégica, Ciencias Policiais e Segurança Pública Preventiva, especialista em Comunicação, Psicologia, Inteligência e Direito. Autor das obras “Guerra Informacional na Segurança Pública”, “Fundamentos da Comunicação Pública para Instituições de Segurança” e “Manual de Storytelling para o Setor Público”.
